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24/MAR/2007
Na Defesa da Língua
Anglicismos – um problema ou uma oportunidade?
O telhado da cultura cada vez apresenta mais telhas partidas,
metendo água por todas as partes. Os grandes factores de
identidade, as colunas culturais – Deus, pátria, família, língua –
estão à disposição. Quem questiona um factor desestabiliza todos
os outros. O cidadão cada vez se sente mais como cão vadio a
pingar em tempo de chuva e tempestade.
Em Portugal, na Alemanha, como por toda a Europa, o tempo está
propício para traficantes e para telhadores.
Discussão na Alemanha por causa dos anglicismos
A fracção parlamentar dos cristãos democratas alemães quer
consolidar a importância da língua na Constituição exigindo o
Alemão como língua do Estado. Com esse fim tenciona fazer uma
iniciativa parlamentar no sentido de defesa da língua para o
consumidor e contra a enxurrada dos anglicismos.
Tudo o que se considera moderno usa locuções inglesas. A
propaganda não só usa e abusa dos anglicismos como até apresenta
frases incorrectas, com erros nos seus textos, para melhor prender
a atenção do destinatário.
Numa sociedade em que só é tabu a ideologia mercantilista em que a
cultura se encontra à disposição também os defensores da língua
são considerados impedidores do progresso. Hoje só se reconhece um
senhor: o Mamon. Só o dinheiro tem a palavra, também a língua se
torna sua serva.
Quem diz sim à aldeia global não se deve admirar que outros façam
piquenique no seu jardim.
Também a Internet com a sua língua própria contribui para a
instabilidade da língua.
Esta porém é determinada e vivida de maneira diferente e vai da
gíria à língua literária. A língua é também expressão do espírito
do tempo sujeita a modas e a circunstância. Hoje que o ser humano,
no Ocidente, deixou de ser o homem e as suas circunstancias para
passar a ser apenas uma circunstância, são naturais as práticas e
os medos do momento.
O argumento de que muita gente não percebe os letreiros e os
folhetos cheios de anglicismos não é fidedigno. De facto, também
as linguagens administrativas e jurídicas não se encontram viradas
para o povo mas sim para os grupos de interesse. Hoje os
lucradores do sistema impõem-se tal como os dos regimes anteriores
se imposeram. A maior parte das pessoas tem dificuldade em
compreender os formulários administrativos e os textos da lei
precisando de invocar intermediários. Os deuses encontram-se
sempre longe do povo a manter ajoelhado!...
Os protectores da língua a consumir estão empenhados na defesa da
cultura. Deveriam porem começar pelas posologias e pela língua
administrativa. Naturalmente que na época da ideologia globalista
em que o inglês é cada vez mais a língua de compreensão a nível
mundial não se pode reagir com um purismo exagerado. Importante
seria, em contrapartida ao espírito esnobe, adaptar as palavras
inglesas ao espírito da própria língua enriquecendo-a.
Por outro lado numa época histórica em que os parlamentos
nacionais perderam muitas competências em benefício duma União
Européia não é muito lógico querer regulamentar tudo através da
lei. A realização da unidade política a nível europeu trará
consigo uma maior aproximação em relação à língua, é a razão do
tempo.
Importante é que na defesa dos específicos culturais nos
aproximemos mais uns dos outros. O colonialismo exterior foi ao
longo de toda a história uma constante no processo evolutivo. A
sua ambivalência é o espelho do colonialismo interno entre os
vários grupos sociais.
António da Cunha
Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
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