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Artigo » António da Cunha Duarte Justo

24/MAR/2007

Na Defesa da Língua
Anglicismos – um problema ou uma oportunidade?

O telhado da cultura cada vez apresenta mais telhas partidas, metendo água por todas as partes. Os grandes factores de identidade, as colunas culturais – Deus, pátria, família, língua – estão à disposição. Quem questiona um factor desestabiliza todos os outros. O cidadão cada vez se sente mais como cão vadio a pingar em tempo de chuva e tempestade.

Em Portugal, na Alemanha, como por toda a Europa, o tempo está propício para traficantes e para telhadores.

Discussão na Alemanha por causa dos anglicismos


A fracção parlamentar dos cristãos democratas alemães quer consolidar a importância da língua na Constituição exigindo o Alemão como língua do Estado. Com esse fim tenciona fazer uma iniciativa parlamentar no sentido de defesa da língua para o consumidor e contra a enxurrada dos anglicismos.

Tudo o que se considera moderno usa locuções inglesas. A propaganda não só usa e abusa dos anglicismos como até apresenta frases incorrectas, com erros nos seus textos, para melhor prender a atenção do destinatário.

Numa sociedade em que só é tabu a ideologia mercantilista em que a cultura se encontra à disposição também os defensores da língua são considerados impedidores do progresso. Hoje só se reconhece um senhor: o Mamon. Só o dinheiro tem a palavra, também a língua se torna sua serva.

Quem diz sim à aldeia global não se deve admirar que outros façam piquenique no seu jardim.

Também a Internet com a sua língua própria contribui para a instabilidade da língua.

Esta porém é determinada e vivida de maneira diferente e vai da gíria à língua literária. A língua é também expressão do espírito do tempo sujeita a modas e a circunstância. Hoje que o ser humano, no Ocidente, deixou de ser o homem e as suas circunstancias para passar a ser apenas uma circunstância, são naturais as práticas e os medos do momento.

O argumento de que muita gente não percebe os letreiros e os folhetos cheios de anglicismos não é fidedigno. De facto, também as linguagens administrativas e jurídicas não se encontram viradas para o povo mas sim para os grupos de interesse. Hoje os lucradores do sistema impõem-se tal como os dos regimes anteriores se imposeram. A maior parte das pessoas tem dificuldade em compreender os formulários administrativos e os textos da lei precisando de invocar intermediários. Os deuses encontram-se sempre longe do povo a manter ajoelhado!...

Os protectores da língua a consumir estão empenhados na defesa da cultura. Deveriam porem começar pelas posologias e pela língua administrativa. Naturalmente que na época da ideologia globalista em que o inglês é cada vez mais a língua de compreensão a nível mundial não se pode reagir com um purismo exagerado. Importante seria, em contrapartida ao espírito esnobe, adaptar as palavras inglesas ao espírito da própria língua enriquecendo-a.

Por outro lado numa época histórica em que os parlamentos nacionais perderam muitas competências em benefício duma União Européia não é muito lógico querer regulamentar tudo através da lei. A realização da unidade política a nível europeu trará consigo uma maior aproximação em relação à língua, é a razão do tempo.

Importante é que na defesa dos específicos culturais nos aproximemos mais uns dos outros. O colonialismo exterior foi ao longo de toda a história uma constante no processo evolutivo. A sua ambivalência é o espelho do colonialismo interno entre os vários grupos sociais.

António da Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo

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