|
14/MAR/2007
Maria: a deusa
secreta do Cristianismo
O século XXI será um século
mais feminino, iniciará a época da mística
O Vaticano II não trata o assunto de Maria como projecto
específico relegando-o para o capítulo sobre a Igreja. Maria é
apresentada como a exemplar seguidora do filho e como protótipo da
Igreja.
Propriamente a Mariologia só apareceu a partir do século XVII. No
século XII começa a aparecer a subjectivação de Maria alcançando
esta o seu clímax no século XIX com a teologia dos privilégios.
Atribui-se-lhe então o carácter singular eminente entre as
criaturas. Recebe o atributo de mãe de Deus e é vista como tipus
ecclesiae (em primeiro plano não está a graça mas a fé). A
prioridade de Maria revela-se no que nela acontece e na sua
disponibilidade (fiat).
O feminismo enfardado
Numa sociedade civil descaradamente masculina com alguns aleivos
femininos seria importante ir buscar ao sótão da nossa tradição a
espiritualidade mariana, possibilitadora de maior criatividade e
abertura num mundo tão macho em que as próprias lutas feministas
não passam geralmente duma luta de mulheres enfardadas. (Não está
em questão o problema das fardas e dos arreios em si, o problema
está no espírito que lhes deu forma e este espírito é só
masculino!).
A Mariologia é o substrato duma espiritualidade feminina a retomar
na tradição do “Evangelho do Coração”. Maria é mais que médium,
tornando-se como que no protótipo de cada pessoa ao ser criadora,
ao dar à luz. Ao mesmo tempo simboliza a comunidade, a ecclesia e
é também a imagem da criação consumada. É modelo na entrega, na fé
e na aceitação. Ela, como a primeira sacerdotisa da cristandade
poderia fazer a ponte para a ordenação de mulheres como
sacerdotisas. No coração do catolicismo manteve-se sempre vivo o
sacerdócio mariano. Até 1903 a “sacerdotisa sem mácula” ainda
aparecia vestida na pintura com os paramentos sacerdotais.
Sintomaticamente a invocação de Maria como sacerdotisa foi
interrompida pelo Santo Ofício, creio que em 1926, altura em que
algumas Igrejas protestantes começavam a falar da admissão de
mulheres como pastoras.
Maria emigrou do protestantismo mas está agora de volta através da
arte e da devoção. Na tradição protestante dado a concentração se
dar em torno de Jesus, Maria tem menos significado que na
católica. Os dogmas sobre Maria não podem ser vistos apenas como
afirmações sobre Cristo.
Muitas igrejas evangélicas trazem o nome de Maria. Ultimamente já
dão mais importância à iconografia assistindo-se a uma mudança e
aproximação na reflexão sobre Maria. A teologia feminista tem
ajudado. A nível da devoção nota-se nos evangélicos cada vez mais
abertura. Por outro lado o feminismo radical só quer a terra como
mãe, ele quer, nalguns sectores, reconquistar Maria como a deusa
das origens. Ele, que vê no monoteísmo o consolidador do
patriarcado, procura fora da tradição bíblica os seus aliados além
de se preocupar em purificar Maria da igreja, talvez porque veja
na Igreja uma concorrência à maternidade e à feminidade. A sua
veemência é um sinal e um aviso aos estabelecidos do religioso que
muitas vezes não tomam em consideração as necessidades de outras
formas de expressão. O grande contributo civilizacional até aqui
dado pelas Igrejas para o desenvolvimento dos povos
Maria pode tornar-se num caminho de aproximação entre
protestantes, católicos e o mundo. Ela é o protótipo do feminino.
A nível de culto e de espiritualidade na relação dos sexos o
catolicismo leva a dianteira aos protestantes. Teologicamente, em
Maria cruzam-se as questões da graça, da justificação e da
colaboração. Também no catolicismo há uma sola fides e uma sola
gratia. Adorado é só Deus, Maria é venerada com inúmeros nomes.
Nele continua reabilitada e viva a tradição politeísta.
O poder da emocionalidade e da feminidade que brotam especialmente
de Fátima e de Lourdes estão muito presentes também no lado
psicológico da fé que é irrenunciável. A saudade original da mãe,
da salvação, da protecção e da identidade cultural não se podem
desprezar. Há toda uma iconografia à volta de Maria que tem de ser
aprofundada não só na espiritualidade e na mística como também na
terapia psicológica. Maria é o protótipo da sabedoria e da
comunidade, da sinagoga. Ela é uma figura tão complexa que inclui
também uma religiosidade secular. O arquétipo da sagrada família
com o presépio é também uma constante. Curioso é o facto da
sagrada família propriamente não ser modelo atendendo ao carácter
marginal de José. E Marcos reforça: “Aquele que faz a minha
vontade é meu pai, minha mãe e meu irmão…”.
A arte é essencialmente feminina
A nossa sociedade mais máscula que nunca precisa de descobrir o
outro pólo da realidade que é a feminidade. Aqui terão muita
importância os artistas. Maria como factor emancipador pode
concorrer para a correcção dum feminismo que inconscientemente
segue os padrões másculos. A teologia mariana ainda tem muito a
caminhar no sentido de dar um grande contributo na encardinação da
feminidade em sistemas eclesiásticos e políticos que embora
defendam a mulher não integraram a feminidade e a masculinidade
como processos dialogais constitutivos do ser humano e da
sociedade. A arte ao encontrar novas imagens dará novos impulsos
para uma nova cognição. É natural que o diálogo da Igreja e dos
artistas não é fácil até porque uns e outros se sentam mais ou
menos conscientemente na fonte.
O pensar bipolar ou pior ainda dialéctico na sua essência
concorrente desfigura a realidade. A polaridade concorrente,
porque não convergente, adia ad aeternum o óbvio salto qualitativo
da consciência humana. O nosso pensamento bipolar caduco em termos
de homem/mulher, razão/alma, filosofia/arte,
teologia/espiritualidade (devoção), política/religião,
protestantismo/ortodoxia, intelectuais/povo e muitas outras
dicotomias fruto da dialéctica e estabilizadores da má consciência
constitui o principal impedimento ao desenvolvimento.
A igreja evangélica na Alemanha reconhecendo o seu carácter
demasiadamente masculino tem-se tornado num espaço aberto à arte e
consequentemente a Maria. Na igreja é dada aos artistas liberdade
de expressão. Por outro lado a arte tem descoberto a Igreja como
espaço da liberdade e não da apropriação. A religião e a arte
precisam de formas contemporâneas sem se reduzirem a elas.
Originariamente a religião era o lugar privilegiado da arte. Com o
recrudescer do racionalismo a política apoderou-se em grande parte
da arte para a tornar um ornamento seu.
Em Portugal as paróquias poderiam tornar-se conscientes desta
problemática e transformar-se em espaços mais abertos aos
artistas. Não chega a sensação de que o espírito feminino já tem
lugar especial nas igrejas. Por vezes há o perigo de se
compreender espírito feminino com sentimentalismo, o que se torna
visível numa certa arte popular denominada por kitsch ou
pseudo-arte. Seria de saudar a arte como parceira hermenêutica da
igreja. A arte e a igreja são o lugar da subjectividade, ponto de
encontro e de partida do ser. A religião e a arte são o lugar
privilegiado da mística onde além do saber intelectual se cultiva
o saber místico. Este pressupõe uma catarsis, uma ascética, um
caminho da extrospecção para a introspecção como método. O saber
intuitivo, místico, vem do coração. Já Pascal dizia que o coração
tem razões que a razão não conhece. O saber místico é integral e
provem do saber, sentir e agir, como nos testemunha a mística
conventual ao longo da história. A palavra atraiçoa e falsifica
até o saber místico. Ele é uma atitude, um estado de vida. É
participação no ser divino através do coração.
Maria, como todos os símbolos religiosos tem sempre sentido duplo.
O movimento das mulheres precisa de marcas pluridimensionais de
referência. A emocionalidade vinda do coração torna-se um fenómeno
cada vez mais raro. Os evangélicos exorcizaram os restos da
feminidade através de movimentos iconoclastas. A igreja católica
no seu processo de aculturação assumiu os lugares das deusas
tornando-os residências de Maria. Como as deusas da fecundidade as
mulheres férteis transmitem a vida. Maria produz a vida sem
intervenção do homem, torna-se grávida por força do espírito. O
novo, o que ainda não havia vem do Espírito Santo. Ela é
misticamente o protótipo da mãe e Deus é simbolizado na virgem.
Nela o homem pode encontrar a sua iniciação mística, o seu ser mãe
também num processo de invaginação. A mãe virgem é a metáfora do
recomeço.
Maria poderia tornar-se num “achado” tanto para a teologia como
para a arte em geral. A bíblia trata de teologia e não de
biologia. A salvação vem de baixo. No magnificat as vítimas são o
sujeito do agir.
A religião precisa duma entrada mística mais significativa. O
caminho místico é o da convergência. O melhor exemplo dele
encontra-se na fórmula mística da Trindade.
António da Cunha
Duarte Justo
Teólogo
|