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Artigo » António Loulé

13/MAR/2007

Monarquia Americana

D. João VI e Carlota Joaquina

A convulsão napoleônica na Europa foi o estopim para um dos fatos mais singulares da História das Américas e do Mundo: a efetiva presença de um Regente, depois Monarca, num país do continente de Colombo e de Cabral.

Em França, depois da Revolução, Napoleão Bonaparte, um oficial da cavalaria oriundo da Córsega, assumiu o governo depois de nomeado Cônsul, foi coroado Imperador, e venceu sucessivas guerras, sangrentas ou simples atos de chantagem, dominando a maioria dos países, excluída sempre a insular Inglaterra, a tradicional pedra no sapato de ditadores europeus.

Na sua ambição sem limites, o Corso, claro está, levou os exércitos aos extremos orientais e ocidentais da Europa. A Moscou, onde sofreu humilhante decepção (“Ninguém vem entregar-me a chave da cidade?” – perguntou) e de onde partiu numa trágica retirada; e à Península Ibérica, onde os seus generais sofreram inéditas e surpreendentes derrotas, que culminaram com a decepção final: viu fugir-lhe da mão o gordo pássaro lusitano, na pessoa do então Regente D. João (que seria mais tarde D. João VI) e toda a corte, além de preciosidades como o melhor da elite portuguesa, e – sábia precaução – a Biblioteca Real, hoje a base e semente da atual Biblioteca Nacional do Brasil.

Merece no entanto alguma reflexão a insólita iniciativa do Regente, tomada em circunstância que descreverei:

Quando principia a invasão francesa, eis o panorama político europeu: os soldados de Napoleão ocupam a Prússia, cujo soberano se exilou; Carlos XIII da Suécia pede ao Imperador dos Franceses que lhe indique o herdeiro do trono, o qual virá a ser o Marechal Bernadotte; abolido na Holanda o regime dos Stathouder, desde 1806, subiu ao trono Luís Bonaparte; uma vez desterrado para a Sicília Fernando de Nápoles, é José Bonaparte quem o substitui; o resto da Itália acha-se dividido em pequenas repúblicas sob a égide da França; os Doges foram expulsos de Veneza, convertida em Principado e o seu titular é Eugênio de Beauharnais, filho da Imperatriz Josefina; a Santa Sé, a Áustria, a Rússia vacilam, receosas, ante o César fardado que as suas vitórias converteram em árbitro da Europa. Panorama assustador. Como sobreviver à derrocada? Como escapar à “razzia” das dinastias tradicionais? Não espantaria se D. João perdesse a cabeça e renunciasse a qualquer luta e a qualquer resistência...

Mas o Príncipe Regente nem perde a cabeça, nem renuncia. Até aí, apesar das dificuldades que afrontou e dos reduzidos meios de que dispunha “fez o que pôde”, como escreveu o historiador Oliveira Martins. Por mais que lhe custasse abandonar a sua terra e a sua gente, informado de que Junot atravessava velozmente a Espanha e se reforçara com as tropas do general espanhol Caraffa – tinha um difícil dilema perante si: aceitar a luta iminente ou buscar outra solução. O primeiro termo do dilema é impraticável: não estava militarmente apto para defrontar a coligação inimiga. O Conselho do Estado, reunido à pressa, escolheu então o melhor caminho: votou (e o Príncipe Regente logo aceitou) a transferência imediata da Corte para o Rio de Janeiro, que assim ficou a capital do Portugal americano.

Quanto a D. Carlota Joaquina, espanhola era de origem e como espanhola se soube comportar. Como também soube comportar-se como Raínha do seu tempo, com seus prós e seus contras. Não o reconhecer é colocar-se numa ucronia, isto é, fora do tempo que se aborda. Não é fácil situar-se alguém na posição de julgar pelos padrões atuais o comportamento de uma Catarina da Rússia, de uma Isabel I de Inglaterra, de uma Maria Antonieta. Seria culturalmente bem vindo quem o fizesse, com rigor e amor, nestes nossos dias.

António Loulé
Diretor do Elos Clube do Rio de Janeiro

Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras

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