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21/FEV/2007
À vida desregrada segue a penitência
Na Idade Média os grandes pecadores, na Quarta-feira de cinzas a
seguir ao Carnaval, vestiam um vestido tipo saco polvilhado com
cinza que traziam até poderem entrar de novo na igreja na
Quinta-feira Santa. Os outros católicos recebiam cinza na cabeça.
Assim se introduz o tempo do jejum em que se renuncia à carne e ao
álcool. Hoje é feita uma cruz na testa e assim se iniciam os
quarenta dias da Quaresma que termina com o Domingo de Páscoa.
Este rito corresponde a um sinal exterior da vontade de se mudar.
A cinza recorda a transitoriedade da vida e a necessidade de ver a
morte como algo natural, como parte da vida sempre em mudança. A
consequente atitude de pena pelo mal feito era a tentativa de
disciplinar os instintos a que se tinha dado rédia solta. Para
isso recorre-se à renúncia da carne e de prazeres exagerados.
O tempo da paixão culmina com a morte de Jesus na Sexta-feira
Santa. Os 40 dias recordam o retiro de Jesus no deserto. É um
tempo especial da purificação interior do corpo para uma melhor
concentração nos valores espirituais. Corpo são e alma sã. Um
processo em que corpo e alma se encontrem em equilíbrio sem que um
viva à custa do outro. A saúde do corpo e da alma está nas nossas
mãos.
Com o jejum, a religião, como com outras tradições, pretende
ajudar o ser humano a levar uma vida equilibrada. Hoje, que se têm
calorias em demasia, a renúncia a comidas demasiado fortes, a
chocolate e semelhantes ajuda também a perder-se alguns quilos que
se têm a mais.
Hoje há um culto em torno do corpo – a onda Wellness. Se exagerado
pode tornar-se na continuação do Carnaval a outro nível. As curas
através do jejum ou mesmo da fome provocam já no corpo um
sentimento de libertação e ajudam ao alívio de sofrimentos como
reumatismo e alta pressão.
O jejum ajuda também a regrar vidas desregradas. Há pessoas que
não conseguem controlar o comer e o beber. Tradições e acções em
grupo ajudam no sentido de oferecerem um ambiente propício ou de
darem uma oportunidade que a nível individual seria talvez difícil
de planear no trotar da vida. A experiência do jejum individual ou
em grupo é salutar: uma oportunidade para o corpo e para a alma.
Há pessoas que durante os 40 dias renunciam a carne, álcool,
produtos lácteos e ovos. Outros não renunciam a carne mas fazem
uma semana de jejum bebendo durante o dia agua e chá e à noite um
caldo de legumes.
Ao renunciarmos a algumas coisas libertamo-nos para outras. A
vontade torna-se mais forte também. Uma consequência da renúncia,
do jejum é mais alegria na vida. Então come-se e bebe-se, vive-se
mais conscientemente. A auto-consciência sente-se mais
fortificada. Importante é que tudo o que se faz não seja forçado,
seja à vontade. A renúncia só tem sentido em função duma mudança,
sem o sentido duma obrigação imposta do exterior. A renúncia
tornar-se-á mais satisfatória se nos dirigirmos à vida e ao
próximo duma maneira positiva. O jejum pode ajudar-nos a sentirmos
a criação e o ambiente duma maneira mais consciente.
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
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