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Artigo » António da Cunha Duarte Justo

21/FEV/2007

À vida desregrada segue a penitência

Na Idade Média os grandes pecadores, na Quarta-feira de cinzas a seguir ao Carnaval, vestiam um vestido tipo saco polvilhado com cinza que traziam até poderem entrar de novo na igreja na Quinta-feira Santa. Os outros católicos recebiam cinza na cabeça. Assim se introduz o tempo do jejum em que se renuncia à carne e ao álcool. Hoje é feita uma cruz na testa e assim se iniciam os quarenta dias da Quaresma que termina com o Domingo de Páscoa.

Este rito corresponde a um sinal exterior da vontade de se mudar. A cinza recorda a transitoriedade da vida e a necessidade de ver a morte como algo natural, como parte da vida sempre em mudança. A consequente atitude de pena pelo mal feito era a tentativa de disciplinar os instintos a que se tinha dado rédia solta. Para isso recorre-se à renúncia da carne e de prazeres exagerados.

O tempo da paixão culmina com a morte de Jesus na Sexta-feira Santa. Os 40 dias recordam o retiro de Jesus no deserto. É um tempo especial da purificação interior do corpo para uma melhor concentração nos valores espirituais. Corpo são e alma sã. Um processo em que corpo e alma se encontrem em equilíbrio sem que um viva à custa do outro. A saúde do corpo e da alma está nas nossas mãos.

Com o jejum, a religião, como com outras tradições, pretende ajudar o ser humano a levar uma vida equilibrada. Hoje, que se têm calorias em demasia, a renúncia a comidas demasiado fortes, a chocolate e semelhantes ajuda também a perder-se alguns quilos que se têm a mais.

Hoje há um culto em torno do corpo – a onda Wellness. Se exagerado pode tornar-se na continuação do Carnaval a outro nível. As curas através do jejum ou mesmo da fome provocam já no corpo um sentimento de libertação e ajudam ao alívio de sofrimentos como reumatismo e alta pressão.

O jejum ajuda também a regrar vidas desregradas. Há pessoas que não conseguem controlar o comer e o beber. Tradições e acções em grupo ajudam no sentido de oferecerem um ambiente propício ou de darem uma oportunidade que a nível individual seria talvez difícil de planear no trotar da vida. A experiência do jejum individual ou em grupo é salutar: uma oportunidade para o corpo e para a alma. Há pessoas que durante os 40 dias renunciam a carne, álcool, produtos lácteos e ovos. Outros não renunciam a carne mas fazem uma semana de jejum bebendo durante o dia agua e chá e à noite um caldo de legumes.

Ao renunciarmos a algumas coisas libertamo-nos para outras. A vontade torna-se mais forte também. Uma consequência da renúncia, do jejum é mais alegria na vida. Então come-se e bebe-se, vive-se mais conscientemente. A auto-consciência sente-se mais fortificada. Importante é que tudo o que se faz não seja forçado, seja à vontade. A renúncia só tem sentido em função duma mudança, sem o sentido duma obrigação imposta do exterior. A renúncia tornar-se-á mais satisfatória se nos dirigirmos à vida e ao próximo duma maneira positiva. O jejum pode ajudar-nos a sentirmos a criação e o ambiente duma maneira mais consciente.

António da Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo

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