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12/FEV/2007
As dores da
democracia
Democracia ou marxismo camuflado ao serviço do turbo-capitalismo
Em nome da liberdade cada vez nos encontramos mais presos à soga
de leis labirínticas. Sob a aparência dum pluralismo partidário
legitimamos um sistema autoritário que, entrando paulatinamente
pela porta do cavalo, cada vez nos domina mais. À sombra dum
estado paternalista fomenta-se um estado proletário. O que se
torna preocupante é o facto de apenas uma nomenclatura bem
enredada em ordens e burocracia estar satisfeita.
A democracia encontra-se doente e desorientada. Cada vez tem menos
valores comuns que a autorizem. Parece viver-se em tempos de
diletantismo geral.
Por um lado espera-se tudo dos políticos e por outro não se confia
neles. Um dilema que mostra a própria impotência e contradição dos
descontentes. O problema é grave tornando-nos também dependentes
duma democracia moralista, à tona dos sentimentos, cada vez com
menos valores comuns.
Os políticos não falam claro. Vivemos cada vez mais num sistema de
grupos de interesse complicado. Na complicação é mais fácil iludir
porque esta favorece a falta de transparência que ajuda os
intermediários. Dela vivem os interesses de instituições
jurídicas, políticas, sociais e económicas. Uma sociedade de
bastidores e com muitos biombos! Um sistema bom para iniciados e
“oportunistas esclarecidos”. Estes vivem bem na sua coutada.
Pode haver da parte de algumas personalidades e políticos
interesse numa mudança para melhor só que estes, ao depararem com
os coutos do próprio partido ou dos lobies, acomodam-se. Política
não se pode reduzir a lobiismo. Os políticos estão dependentes da
arbitrariedade das multinacionais. Para estas o que conta são os
postos de trabalho mais baratos à custa das democracias. Hoje
vivemos a ditadura do globalismo. O bem-comum das economias
europeias é posto à disposição dos especuladores accionistas
internacionais. Processa-se um transfer de capital das camadas
baixas e médias para as grandes multinacionais. Se o transfer
fosse feito em benefício das economias mais fracas ainda se
compreenderia. Os políticos que agora andam ao sabor das ondas da
economia sabem que um dia podem nacionalizar as empresas mas a que
custo? Uma outra grande possibilidade é o recurso à bancarrota da
moeda a nível internacional.
A vontade popular perde sentido neste contexto. Por outro lado, os
políticos nacionais reduzem-se a meros aplicadores das normas
europeias. O estado entre a alternativa de seguir a vontade dos
investidores e a vontade popular vê-se obrigado a optar pela
primeira. Os políticos não o podem dizer publicamente ao povo
porque então isso desagradaria os investidores que querem explorar
à vontade e sem má consciência. Assim os políticos são reduzidos a
transmissores e legitimadores do anonimato de irresponsabilidades
ilimitadas.
A nível político europeu os políticos mostram-se cobardes não
deixando o povo votar para a Constituição. O povo torna-se apenas
pretexto! Há apenas um problema atmosférico: é que o povo cada vez
nota mais o que se passa, mas, como é povo, contenta-se com o
sofrer.
Se surgem alguns “populistas” logo os políticos se insurgem contra
eles esquecendo que também eles não respeitam a vontade popular ou
não intentam nada para a mudar. A democracia tal como outros
sistemas não suporta nas suas estruturas pessoas que pensem por si
mesmas. Corrijo, a democracia não, mas sim aqueles que se
apoderaram dela. Falam da diferença mas não lhe dão espaço.
Numa noite de insónia democrática!
Com os representantes dos partidos corre-se o perigo de se
caminhar para os mesmos problemas que cometeram as ditaduras
comunistas: esquecerem o povo e confiarem apenas na nomenclatura,
no aparelho administrativo dependentes dum comité central.
Enquanto que os comunistas puseram o povo na rua os “democratas”
parecem encurralá-lo simbolicamente no parlamento.
Os partidos formaram-se e retalharam o povo no parlamento. A
princípio cada partido tinha uma filosofia própria, a sua verdade.
Como o povo não mastiga filosofia faz-se uma açorda parlamentar.
Cada partido mete no panelão parlamentar o seu tempero. Na mistura
não se preocuparam com os problemas estomacais do povo. A
princípio ainda afirmavam que o segredo da receita estava no mexer
da mistura. Por fim, à vontade, acordaram entre eles que o
importante do guisado estava no cheiro. De facto não consta que
tenha morrido alguém por causa do cheiro. Muito menos ainda do
cheiro a democracia! Entretanto nalguns meios a democracia já
tresanda e o povo, de tanto cheirar, até parece que tresanda
também. Em compensação os homens da colher de pau cada vez são
mais iguais e cheiram mais a próximo.
Nos partidos, a princípio, ainda havia homens com opinião. Como
agora o que importa é o cheiro esses homens baixaram a bola e em
vez deles surgiu a opinião da máquina, a opinião da fracção
parlamentar. Reduzidos a cozinheiros, os parlamentares
desabituaram-se de pensar porque bastava açorda. Como o povo só
podia levantar a mão de quatro em quatro anos esqueceram-se dele
também. Como o povo tem memória curta esqueceram-se uns dos
outros. Em quatro anos acontece muita coisa! E no fim resta um
estado de tachos.
Entretanto os parlamentares depois de tanta açorda e de tantos
tachos já nem o cheiro distinguem e adquirem também qualidades de
mimetismo. A diferença apenas parece estar nos tachos. Não importa
o que vai dentro. O progresso é de tal ordem que até a cor dos
tachos se torna mimética também. Os nossos políticos são cada vez
mais sociáveis, mais socialistas. Na açorda que fazem metem tanta
droga que cada vez nos amarra mais ao sistema! Sem notar bebemos
todos a mezinha marxista. Cada vez nos encontramos mais amarrados,
nos sentimos mais dependentes, tendo a impressão de nos tornarmos
proletários dum estado ordenador. Basta o cheiro a democracia ao
som do canto das liberdades abstractas, ou melhor, das dos outros!
Entramos num estado gasoso, num estado de graça. Prescinde-se do
pensar. Se antigamente a religião era o ópio do povo hoje é o
pensar, o pensar correcto. Em nome da igualdade e do progresso
acaba-se com as cabeças, com as diferenças, bastam braços e bocas!
A ideologia é tão forte que até a natureza é envolvida: as árvores
maiores são fascistas. Quem sobressai é fascista, a não ser que
tenha engordado à conta da ideologia, do partido. Para melhor
viver será melhor amputar parte das funções cerebrais.
O factual ordinário!
O povo cada vez vai tendo mais a impressão de que quem ganhou com
a revolução foram os ardinas da revolução. Para estes os postos,
para o povo as tais liberdades democráticas que geralmente mais
interessam aos sempre novos “burgueses”. Os lugares dos tais
fascistas de ontem são ocupados pelos democratas de hoje. Os
primeiros pediam disciplina e retenção ao povo, os novos pedem
apenas os votos de quatro em quatro anos e mais impostos,
oferecendo em contrapartida a liberdade e igualdade no sofrer.
Aqueles exploravam individualmente, estes anonimamente. A pequena
diferença é que estes são legitimados pelo domesticado povo.
Presos ao obscurantismo dos factos falam de liberdade no seu mundo
servo.
Para possibilitarmos o exercício duma democracia mais humana
teremos todos que nos co-responsabilizar na construção dum povo
digno. Para isso será necessário o trabalho individual e colectivo
no fomento duma nova mentalidade. Doutro modo correremos o perigo
de continuarmos a ser narcisistas aprisionados na fortaleza da
normalidade, do habitual. Então as elites continuarão a ter razão
com a sua desculpa para não ouvirem nem ligarem: na casa sem pão
todos ralham e ninguém tem razão.
Uma recomendação: Limite de mandatos para funcionários superiores
seria uma medida contra a corrupção. Além disso não permitiria que
pessoas como Mário Soares descessem tão baixo impedindo-os de
estragar a sua figura.
Não chega viver e deixar viver. Confiança é boa mas controlo é
melhor!
Se estamos verdadeiramente interessados no fortalecimento da
democracia temos que lhe dar mais possibilidade de participação,
tal como na Suiça.
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
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