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Artigo » António da Cunha Duarte Justo

12/FEV/2007

 

As dores da democracia

Democracia ou marxismo camuflado ao serviço do turbo-capitalismo

Em nome da liberdade cada vez nos encontramos mais presos à soga de leis labirínticas. Sob a aparência dum pluralismo partidário legitimamos um sistema autoritário que, entrando paulatinamente pela porta do cavalo, cada vez nos domina mais. À sombra dum estado paternalista fomenta-se um estado proletário. O que se torna preocupante é o facto de apenas uma nomenclatura bem enredada em ordens e burocracia estar satisfeita.

A democracia encontra-se doente e desorientada. Cada vez tem menos valores comuns que a autorizem. Parece viver-se em tempos de diletantismo geral.

Por um lado espera-se tudo dos políticos e por outro não se confia neles. Um dilema que mostra a própria impotência e contradição dos descontentes. O problema é grave tornando-nos também dependentes duma democracia moralista, à tona dos sentimentos, cada vez com menos valores comuns.

Os políticos não falam claro. Vivemos cada vez mais num sistema de grupos de interesse complicado. Na complicação é mais fácil iludir porque esta favorece a falta de transparência que ajuda os intermediários. Dela vivem os interesses de instituições jurídicas, políticas, sociais e económicas. Uma sociedade de bastidores e com muitos biombos! Um sistema bom para iniciados e “oportunistas esclarecidos”. Estes vivem bem na sua coutada.

Pode haver da parte de algumas personalidades e políticos interesse numa mudança para melhor só que estes, ao depararem com os coutos do próprio partido ou dos lobies, acomodam-se. Política não se pode reduzir a lobiismo. Os políticos estão dependentes da arbitrariedade das multinacionais. Para estas o que conta são os postos de trabalho mais baratos à custa das democracias. Hoje vivemos a ditadura do globalismo. O bem-comum das economias europeias é posto à disposição dos especuladores accionistas internacionais. Processa-se um transfer de capital das camadas baixas e médias para as grandes multinacionais. Se o transfer fosse feito em benefício das economias mais fracas ainda se compreenderia. Os políticos que agora andam ao sabor das ondas da economia sabem que um dia podem nacionalizar as empresas mas a que custo? Uma outra grande possibilidade é o recurso à bancarrota da moeda a nível internacional.

A vontade popular perde sentido neste contexto. Por outro lado, os políticos nacionais reduzem-se a meros aplicadores das normas europeias. O estado entre a alternativa de seguir a vontade dos investidores e a vontade popular vê-se obrigado a optar pela primeira. Os políticos não o podem dizer publicamente ao povo porque então isso desagradaria os investidores que querem explorar à vontade e sem má consciência. Assim os políticos são reduzidos a transmissores e legitimadores do anonimato de irresponsabilidades ilimitadas.

A nível político europeu os políticos mostram-se cobardes não deixando o povo votar para a Constituição. O povo torna-se apenas pretexto! Há apenas um problema atmosférico: é que o povo cada vez nota mais o que se passa, mas, como é povo, contenta-se com o sofrer.

Se surgem alguns “populistas” logo os políticos se insurgem contra eles esquecendo que também eles não respeitam a vontade popular ou não intentam nada para a mudar. A democracia tal como outros sistemas não suporta nas suas estruturas pessoas que pensem por si mesmas. Corrijo, a democracia não, mas sim aqueles que se apoderaram dela. Falam da diferença mas não lhe dão espaço.

Numa noite de insónia democrática!

Com os representantes dos partidos corre-se o perigo de se caminhar para os mesmos problemas que cometeram as ditaduras comunistas: esquecerem o povo e confiarem apenas na nomenclatura, no aparelho administrativo dependentes dum comité central. Enquanto que os comunistas puseram o povo na rua os “democratas” parecem encurralá-lo simbolicamente no parlamento.

Os partidos formaram-se e retalharam o povo no parlamento. A princípio cada partido tinha uma filosofia própria, a sua verdade. Como o povo não mastiga filosofia faz-se uma açorda parlamentar. Cada partido mete no panelão parlamentar o seu tempero. Na mistura não se preocuparam com os problemas estomacais do povo. A princípio ainda afirmavam que o segredo da receita estava no mexer da mistura. Por fim, à vontade, acordaram entre eles que o importante do guisado estava no cheiro. De facto não consta que tenha morrido alguém por causa do cheiro. Muito menos ainda do cheiro a democracia! Entretanto nalguns meios a democracia já tresanda e o povo, de tanto cheirar, até parece que tresanda também. Em compensação os homens da colher de pau cada vez são mais iguais e cheiram mais a próximo.

Nos partidos, a princípio, ainda havia homens com opinião. Como agora o que importa é o cheiro esses homens baixaram a bola e em vez deles surgiu a opinião da máquina, a opinião da fracção parlamentar. Reduzidos a cozinheiros, os parlamentares desabituaram-se de pensar porque bastava açorda. Como o povo só podia levantar a mão de quatro em quatro anos esqueceram-se dele também. Como o povo tem memória curta esqueceram-se uns dos outros. Em quatro anos acontece muita coisa! E no fim resta um estado de tachos.

Entretanto os parlamentares depois de tanta açorda e de tantos tachos já nem o cheiro distinguem e adquirem também qualidades de mimetismo. A diferença apenas parece estar nos tachos. Não importa o que vai dentro. O progresso é de tal ordem que até a cor dos tachos se torna mimética também. Os nossos políticos são cada vez mais sociáveis, mais socialistas. Na açorda que fazem metem tanta droga que cada vez nos amarra mais ao sistema! Sem notar bebemos todos a mezinha marxista. Cada vez nos encontramos mais amarrados, nos sentimos mais dependentes, tendo a impressão de nos tornarmos proletários dum estado ordenador. Basta o cheiro a democracia ao som do canto das liberdades abstractas, ou melhor, das dos outros! Entramos num estado gasoso, num estado de graça. Prescinde-se do pensar. Se antigamente a religião era o ópio do povo hoje é o pensar, o pensar correcto. Em nome da igualdade e do progresso acaba-se com as cabeças, com as diferenças, bastam braços e bocas!

A ideologia é tão forte que até a natureza é envolvida: as árvores maiores são fascistas. Quem sobressai é fascista, a não ser que tenha engordado à conta da ideologia, do partido. Para melhor viver será melhor amputar parte das funções cerebrais.

O factual ordinário!

O povo cada vez vai tendo mais a impressão de que quem ganhou com a revolução foram os ardinas da revolução. Para estes os postos, para o povo as tais liberdades democráticas que geralmente mais interessam aos sempre novos “burgueses”. Os lugares dos tais fascistas de ontem são ocupados pelos democratas de hoje. Os primeiros pediam disciplina e retenção ao povo, os novos pedem apenas os votos de quatro em quatro anos e mais impostos, oferecendo em contrapartida a liberdade e igualdade no sofrer. Aqueles exploravam individualmente, estes anonimamente. A pequena diferença é que estes são legitimados pelo domesticado povo.

Presos ao obscurantismo dos factos falam de liberdade no seu mundo servo.

Para possibilitarmos o exercício duma democracia mais humana teremos todos que nos co-responsabilizar na construção dum povo digno. Para isso será necessário o trabalho individual e colectivo no fomento duma nova mentalidade. Doutro modo correremos o perigo de continuarmos a ser narcisistas aprisionados na fortaleza da normalidade, do habitual. Então as elites continuarão a ter razão com a sua desculpa para não ouvirem nem ligarem: na casa sem pão todos ralham e ninguém tem razão.

Uma recomendação: Limite de mandatos para funcionários superiores seria uma medida contra a corrupção. Além disso não permitiria que pessoas como Mário Soares descessem tão baixo impedindo-os de estragar a sua figura.

Não chega viver e deixar viver. Confiança é boa mas controlo é melhor!

Se estamos verdadeiramente interessados no fortalecimento da democracia temos que lhe dar mais possibilidade de participação, tal como na Suiça.

António da Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo

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