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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

12/JAN/2007

Portugal/Ocidente e Oriente

A magna questão das postas de pescada

Sabemos todos nós bem, eu e os meus leitores, que Portugal é o país dos estudos profundos e dos inquéritos rigorosos. E sabemos também todos que tudo dá sempre nada, ou quase nada, ao ponto de estarmos hoje reduzidos ao lugar que a seriação européia nos conferiu. Digamos assim e de um modo sintético: somos o país das grandes postas de pescada!

Num tal cenário, o problema das postas de pescada transformou-se num magno problema da nossa vida colectiva, porque o mesmo nos impede de aceder a patamares mais elevados do ranking europeu ou internacional.

Ora, uma das nossas mais referentes postas de pescada dos últimos tempos é a que se prende com os famigerados vôos da CIA, já confirmados pelo presidente norte-americano como tendo realmente existido, e destinados, entre tantas outras tarefas, a realizar a transferência de detidos entre o território dos Estados Unidos e prisões de outros países que aquele não revelou.

Também sabemos que a guerra dita assimétrica, com que os terroristas islâmicos da Al Qaeda vêm fustigando o Ocidente, com particular ênfase para os Estados Unidos - convém não esquecer a declaração de guerra de 11 de Setembro...-, é por aqueles apontada como sendo imparável.

A verdade é que, tendo sempre presentes os objectivos dos terroristas islâmicos da Al Qaeda, os resultados, por todo o espaço ocidental, contra o terrorismo, são fracos, divididos e mínimos, o que nada tem que ver com a intervenção dos Estados Unidos no Iraque, mas com o modo muito diferente de tratar o problema: no espaço da União Européia sempre e só palavras, no espaço anglo-saxónico, em particular nos Estados Unidos, quase só força.

Como é evidente, a resposta a esta guerra declarada pelo terrorismo islâmico ao Ocidente, para mais à luz do que se disse antes, não pode operar-se através das regras do designado Estado de Direito Democrático, porque o inimigo em causa não olha a meios para atingir os seus fins, certo de que os países ocidentais, enredados na multiteia de princípios, leis e regras morais, acabarão sempre por responder frouxamente e de modo dividido.

Portanto, o que os Estados Unidos fizeram foi utilizar os métodos que os europeus utilizariam se tivessem sido atacados como aqueles foram. O problema está na postura de mentira dos dirigentes designados democráticos, que não podem vir assentir que necessitam de violar os direitos humanos no plano de acção do seu Sistema de Justiça.

Dada a balbúrdia a que se chegou, o surgimento de uma eurodeputada como Ana Gomes provoca um efeito semelhante ao de Humberto Delgado naquelas eleições presidenciais já longínquas: é a voz de verdade e moralizadora que vem de dentro da própria arena dita democrática, mas que se sabe não possuir meios democráticos para enfrentar o inimigo destes tempos.

Um tal problema terá solução segura, mas só nas próximas eleições para a Assembléia da República ou para o Parlamento Europeu, através da não colocação da nossa política em lugares elegíveis, situação com que as restantes mulheres ditas socialistas nem sequer pestanejarão. Simplesmente, tais intervenções inúteis estão ainda longe, pelo que este efeito de terrível acidez - chega mesmo a atacar certos estômagos...- está para durar. Até porque podem sempre surgir nos Estados Unidos novas revelações jornalísticas, ou novas confissões de gente que ainda acredita na política, na constituição e nas leis, o que transformará aquela acidez estomacal em autênticas úlceras...

E por isso eu termino como comecei este texto: o nosso grande problema são as postas de pescada, sobretudo quando apresentadas em bicos de pés. Livrarmo-nos de uma tal realidade pode ser um promontório de trabalhos, para mais sem que o respectivo contorno dependa só de nós, caso em que tudo seria simples e claramente ultrapassável. É uma chatice...!

Note-se o modo gracioso como o deputado do CDS/PP recusou a proposta de criação de uma comissão de inquérito para este caso: nada tem contra a passagem de vôos da CIA pelo território nacional, ou pelo nosso espaço aéreo, desde que não violem as leis nacionais. E se violaram, como tudo faz crer? Se houve vôos e com presos a bordo, como confirmou George W. Bush, porque não averiguar? E mesmo fora do País, por muitas outras instituições que nos são exteriores! Era o que fariam os Estados Unidos se a situação fosse a contrária! Não foi isso mesmo que nos contou o Presidente do Paquistão, que veria o seu país conduzido à Idade da Pedra se não colaborasse?

E já agora: quem será que Ana Gomes pensa que seria mais seriamente atingido com o conhecimento da verdadeira realidade? Bush não é certamente, e a solução não estará ali...

Hélio Bernardo Lopes

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