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13/JAN/2007
Política e Religião/Socialismo
Mas qual deverá ser a inspiração?
Todos nos recordamos bem das sucessivas tomadas de posição dos
bispos timorenses, logo depois de conseguida a independência:
julgamento dos responsáveis, timorenses ou indonésios, pelo que se
passara anteriormente.
Confesso que, vindo de bispos católicos, a ideia nunca me pareceu
boa, mas era o tempo da moda de Timor, de Xanana, de Horta e de
Ximenes, pelo que poucos terão levantado objeções, se é que se
aperceberam do que realmente faltava ali de humanismo cristão.
De resto, eu conheço bem o que foi a guerra civil de Espanha, e os
massacres sofridos pelos republicanos às mãos de Franco, de
parceria com o mais cabal silêncio da Igreja Católica, fosse de
Espanha ou do Vaticano. Neste sentido, pois, a estranheza nem foi
muito grande.
Mas acontece que, recentemente, a Conferência Episcopal da
Venezuela veio pedir ao Presidente Hugo Chávez que promova a
unidade dos venezuelanos e amnistie o que designou por presos
políticos.
Com grande apropósito, Hugo Chávez, respondeu a realidade: na
Venezuela não existem presos políticos, mas sim políticos presos,
o que faz toda a diferença.
Não deixa de ser estranho que a Igreja Católica tenha assim
métricas tão diferentes para avaliar realidades substantivamente
idênticas. Embora em número muito diferente, a verdade é que os
golpistas venezuelanos, para lá de violarem leis diversas, também
causaram a morte de alguns dos seus compatriotas. Portanto, porquê
pedir a amnistia de políticos tão pouco democráticos e tão
limitadamente respeitadores dos direitos humanos dos outros?
Bom, mas a Conferência Episcopal da Venezuela foi mais longe:
pediu que o socialismo do século XXI não seja de inspiração
marxista. Não é propriamente mau, porque o marxismo é uma doutrina
que deu muito maus resultados, embora tenha conseguido alguns
muito bons no plano social.
Mas se a Igreja Católica da Venezuela não deseja que o socialismo
do século XXI seja de inspiração marxista, de que inspiração é que
deseja? Cristã? Mas, então, a mensagem de Cristo é susceptível de
servir de suporte ao socialismo? Em que se fica, afinal?
Estamos num tempo de grande troca de informação e onde vão
surgindo, a uma cadência rápida, dados sempre novos para a
reflexão de cada um de nós, pelo que se torna imperativo que uma
instituição universal, como é o caso da Igreja Católica, que ainda
é, nos tempos que passam, a única referência de esperança de
milhões de pessoas, e de respeito para muitas mais, use a sua
doutrina de um modo universal e coerente, fugindo a essa marca de
classe de que muitas vezes dá indicações.
Há aspectos onde uma nítida mudança se tem vindo a operar, como
foi o caso da pedofilia nos Estados Unidos, na Áustria e na
Irlanda, e como agora se está a dar com o caso dos elementos do
clero polaco que trabalharam para o serviço secreto polaco
comunista. Ou mesmo que o não fosse.
O que a Igreja Católica não deve é tratar de modo distinto o que
tem fortíssimas semelhanças, quando não é mesmo igual. É um marca
antiga a que tem de pôr-se cobro. Muito mais complicado é
encontrar uma inspiração para o socialismo, porque as suas idéias
pressupõem, no mínimo, que cada um de nós seja capaz de se
desinteressar da riqueza e se mostre com vontade para colaborar
com a comunidade através da solidariedade que o Amor que Deus nos
dedica também nos obriga a repartir. E isso, claro está, é uma
porra... É preferível falar em justiça social e em dignidade
humana, evitando a palavra socialismo.
Hélio
Bernardo Lopes
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