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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

08/JAN/2007

Carta aos meus leitores

Determinei-me a escrever-lhe esta carta em face do referendo entretanto marcado para o segundo domingo de Fevereiro, sobre a designada interrupção voluntária da gravidez, usualmente designada por aborto.

Escrevo esta carta por uma dupla razão. Por um lado, porque o meu caríssimo leitor e amigo de há muito me dá a honra de ler os textos que venho escrevendo. Por outro lado, porque entendo que tem faltado alguma clareza na discussão deste importantíssimo tema, e que está ao meu alcance contribuir para que a mesma se possa conseguir.

A questão do aborto só gera polémica porque, como é evidente, se prende com a vida. E é na seqüência desta realidade que todas as restantes apreciações que possam fazer-se sobre o tema têm de ser vistas.

Se o meu caro leitor prestar a sua melhor atenção à realidade que envolve o problema da vida, verá que a sociedade que conhece hoje é uma estrutura com história, e por isso também com memória. Esta história e a sua memória surgem-nos dos modos mais imperceptíveis, mas que se materializam sempre em condicionamentos sobre o comportamento de cada um na vida em sociedade. Até na apreciação valorativa do comportamento de quem nos rodeia.

Se o meu caríssimo leitor não quiser negar a verdade que observa nem fugir ao que a sua consciência impõe, compreenderá que está longe de poder considerar-se um ser absolutamente livre. Há muito que gostaria de fazer, mas a que não pode dar corpo, porque ou a sociedade simplesmente proíbe, ou porque tolera mal, ou porque a sua própria consciência, em última análise, acaba por pará-lo de seguir o caminho para tal necessário.

A nossa liberdade, como se sabe bem, tem sempre limites. Esses limites são, pois, determinados pela moral e pelo direito. Mas qualquer destes corpos doutrinais, por razões históricas conhecidas, teve sempre a montante uma estrutura religiosa.

Esta estrutura, condicionada, para o bem e para o mal, pelo modo como a sociedade se tem desenvolvido, nunca deixou de estar presente. E se vistas as coisas com alguma atenção, nem mesmo perdeu a característica de ver aceite o seu pensamento, até mesmo a sua representação a níveis muito diversos, seja no plano interno, seja no internacional.

Haveremos todos de convir que num tempo de grande desnorte e de crescente injustiça, onde não pára de falhar a resposta do que fomos capazes de criar com a nossa inteligência, a verdade é que vai crescendo a expectância de uma voz que valha pelo seu indiscutível valor de verdade. Uma voz que seja pronunciada na base da verdade e do bem, do desinteresse pelo inútil, e que seja eco do combate à injustiça que vai crescendo no Mundo a que chegámos.

Ora, nesta sociedade a que chegámos há um dado novo em face do que se viveu até há algum tempo atrás, que é o facto de cada um de nós, de um modo crescente, exigir níveis de liberdade cada vez maiores.

A uma primeira vista, trata-se, até, de uma atitude natural e salutar, mas sobre ela tem de conceder-se alguma atenção. Porque uma sociedade onde esse grau de liberdade seja como que imparável, para mais num tempo onde os interesses se vêm batendo pela minimização do papel corrector e orientador do Estado, única entidade que pode realmente promover e defender o que quase todos entendem como bem comum, o que acabará por sobrevir será uma sociedade onde mandará o mais forte. De resto, é já o que se dá nos dias de hoje, pelas consequências da aplicação do neoliberalismo e da própria globalização, que acaba por servir os interesses daquele modelo de sociedade.

A questão que vai dirimir-se no próximo referendo prende-se com a vida. E sobre esta questão têm sido produzidas enormíssimas atoardas. A principal delas é o mal colocado problema de saber quando a vida humana começa.

Não é necessário ser-se médico, ou biólogo, ou mesmo ter um conhecimento razoável sobre a estrutura do ser humano, e do modo como é gerado, para se compreender que se o óvulo de uma mulher for fecundado pelo espermatozóide de um homem, o que dali se poderá gerar por via natural terá de ser um ser humano, porventura com malformações. Não surgirá dali um qualquer outro ser animal, ou de outra natureza.

Esta realidade deita, pois, por terra o inacreditável prazo das dez semanas, que são agora e aqui dez, mas que são de valores os mais diversos por outros tantos lugares do Mundo. Este foi o segundo grande erro de fundo dos promotores deste referendo. Uma infeliz atitude política, que propiciou aos adversários do aborto o lógico argumento de saber o que fazer das mulheres que abortem depois das dez semanas.

Ora, se se admitir que o pensamento contemporâneo e a sua projeção no modo de organizar a sociedade está correcto em matéria de liberdade individual, haverá de reconhecer-se que o Direito Penal terá de mostrar uma progressiva adaptação a temas até há pouco considerados como ilícitos mas que o vão progressivamente deixando de ser.

É neste aspecto que entronca a polémica actual em torno do aborto, ou seja, por levar as mulheres que o praticam à barra dos tribunais, onde sempre haverão de ser sujeitas a um tratamento humanamente desagradável.

Esta realidade, como é evidente, não irá terminar, mesmo que neste referendo que se vai realizar triunfem os defensores do fim da ilegalidade da prática do aborto, porque o problema continuará a colocar-se para as mulheres que realizem um aborto depois das dez semanas, e porque, de facto, países há, e os mais diversos, onde o prazo em questão é bem mais vasto e diverso.

Só há um caminho para resolver, de vez, este problema. Por um lado, reconhecer que, de um modo muito geral, as mulheres não irão recorrer ao aborto de um modo fácil ou irresponsável, como se seja algo de vulgar e banal. Por outro lado, porque a probabilidade de se praticarem abortos por iniciativa da mulher, por cá e clandestinamente, ou em qualquer outra paragem, diminui rapidamente com o avanço do tempo de gravidez. É a evidência!

Por tudo isto e dada a evidência de que o próximo referendo não irá pôr um fim na polémica das mulheres levadas à barra dos tribunais, a melhor solução é não participar, e de um modo maciço, neste referendo que se aproxima, de modo a retirar-lhe valor vinculativo, até meramente político, e porque para os que combatem o aborto é a atitude lógica, uma vez que a vida não é referendável.

Finalmente, formular o desejo forte, manifestado através de contactos inteligentemente organizados ao nível político, jurídico e médico, no sentido de promover a necessária alteração ao Código Penal, de molde a que a mulher que realize um aborto deixe de ser alvo da alçada de Justiça. De facto, ninguém irá abortar por deixar o aborto de ser um crime.

Tudo o que escrevi antes do parágrafo anterior destinou-se a enquadrar melhor os fundamentos da razão de se ter chegado à situação actual, mas onde se nota de modo claro que o valor da vida é de natureza transcendente, razão por que se não deve legislar uma autorização para abortar em certo prazo. Coisa diferente é a Ordem Jurídica fazer-se eco de um modo superior do acto de perdoar. Em todo o caso, uma realidade lógica no nosso tempo, mas que exige dos que se dizem defensores da vida uma atitude diferente da que se tem tido até aqui, ou seja, deverão promover o apoio às mulheres carenciadas, às mães solteiras e levarem a sua doutrina e os riscos da sua violação ao conhecimento da comunidade, muito em particular, da mais jovem. A vida não se referenda!

Hélio Bernardo Lopes

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