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07/JAN/2006
O Natal da minha infância
Os períodos natalinos sempre nos
trazem à lembrança momentos marcantes na nossa vida. Sem dúvida é
na nossa infância que ficam as marcas mais significativas desta
fase da nossa jornada, passagens essas que, todos os anos retornam
ao pensamento, fazendo-nos reviver aqueles momentos, alguns
felizes, outros nem tanto, mas que continuam a povoar o nosso
consciente e a influenciar o nosso estado de espírito nesta
especial fase do ano.
Para quem é cristão e católico como a maioria dos portugueses e
dos brasileiros, é sempre um período de contemplação, de reflexão
e de esperança de dias melhores, reveladas na figura de Cristo
menino, no seu berço em Nazaré, figuração que nos traz a
expectativa de uma nova vida pela frente, a começar no Ano Novo
que está para chegar e que o olhar para o Deus menino fica
entusiasmado por tudo o que o futuro poderá lhe revelar,
simbolizados pelo alvorecer dessa nova vida e o florescer de
oportunidades.
A minha infância teve duas fases bem distintas: até aos sete anos,
na minha cidade do Porto, onde nasci e onde conheci as primeiras
revelações do Natal, passando a valorizar tais momentos pela
expectativa dos presentes, colocados sorrateiramente na meia
colocada estrategicamente em cima da lareira na casa de meus avós,
em Vila Nova de Gaia.
A família de meu pai (e que era muito grande) se reunia em volta
de uma enorme mesa (que naquela ocasião me parecia bem maior) com
a minha saudosa avó na cabeceira (que na época já era viúva),
oportunidade na qual se festejava aquela data, com uma ceia de
Natal onde não faltavam os assados e o indispensável bacalhau
cozido à portuguesa, ao qual se seguiam inúmeras sobremesas com as
quais nos deliciávamos constituídas de frutas, de doces, onde
pontificavam as frutas cristalizadas, as nozes, as avelãs, os
figos, as passas, onde também não faltava a aletria, as rabanadas
e as castanhas, tudo isso acompanhado dos vinhos (isso só para os
adultos) e dos sucos e dos refrigerantes, deixando-nos (as
crianças) envolvidos naquele ambiente familiar e acolhedor, onde
não faltavam lembranças de outros Natais e das pessoas que ali já
não estavam, ou porque não tinham podido vir, ou porque tinham
emigrado, ou mesmo por já terem falecido. Eram momentos de encanto
e de emoção e que eram aguardados por todos, durante o d! ecorrer
do ano, para ali serem vividos com todo o entusiasmo e fervor.
Lembro, claramente, que a minha mãe tinha que fazer um esforço
todo especial para me fazer dormir tal era a ânsia de saber o que
o Pai Natal iria trazer após a meia noite e, logo nas primeiras
horas do dia seguinte, o Dia de Natal, acordava, pedindo à minha
mãe para me levar até à lareira para descobrir o que o bom
velhinho tinha deixado.
Posteriormente, tendo passado a viver no Rio de Janeiro, para onde
nós emigramos (isto há 53 anos), as tradições a que nos tínhamos
acostumado desde essa tenra idade, continuaram a fluir e passamos
a nos encontrar na casa de minha tia Rosa, no Rio Comprido, onde
ela fazia questão de reviver as tradições e o ambiente familiares
a que estávamos acostumados desde Oliveira do Douro. O tempo foi
passando e as pessoas mais velhas foram nos deixando, outros novos
membros da família foram chegando, mas eu continuo a exercitar a
minha memória e a relembrar os momentos tão felizes e
significativos que a infância me deixou nessas comemorações
natalinas, procurando transmi! tir a meus filhos, à minha neta,
aos sobrinhos e aos meus familiares, esta tradição tão cristã e
portuguesa, fazendo reunir na minha casa todos eles, na
expectativa de que as crianças de hoje possam vir a ter os
momentos de felicidade e de encanto que eu pude usufruir naqueles
Natais da minha infância e que me marcaram definitivamente por
toda a vida. O Natal é, sem sombra de dúvida, uma festa de amor,
de compreensão e de paz, sentimentos que devemos preservar e que
as crianças conseguem nos transmitir melhor do que ninguém. Feliz
Natal!
Eduardo
Neves Moreira
Ex-Presidente do Conselho Mundial das Comunidades Portuguesas
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