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Artigo » Eduardo Neves Moreira

07/JAN/2006

O Natal da minha infância

Os períodos natalinos sempre nos trazem à lembrança momentos marcantes na nossa vida. Sem dúvida é na nossa infância que ficam as marcas mais significativas desta fase da nossa jornada, passagens essas que, todos os anos retornam ao pensamento, fazendo-nos reviver aqueles momentos, alguns felizes, outros nem tanto, mas que continuam a povoar o nosso consciente e a influenciar o nosso estado de espírito nesta especial fase do ano.

Para quem é cristão e católico como a maioria dos portugueses e dos brasileiros, é sempre um período de contemplação, de reflexão e de esperança de dias melhores, reveladas na figura de Cristo menino, no seu berço em Nazaré, figuração que nos traz a expectativa de uma nova vida pela frente, a começar no Ano Novo que está para chegar e que o olhar para o Deus menino fica entusiasmado por tudo o que o futuro poderá lhe revelar, simbolizados pelo alvorecer dessa nova vida e o florescer de oportunidades.

A minha infância teve duas fases bem distintas: até aos sete anos, na minha cidade do Porto, onde nasci e onde conheci as primeiras revelações do Natal, passando a valorizar tais momentos pela expectativa dos presentes, colocados sorrateiramente na meia colocada estrategicamente em cima da lareira na casa de meus avós, em Vila Nova de Gaia.

A família de meu pai (e que era muito grande) se reunia em volta de uma enorme mesa (que naquela ocasião me parecia bem maior) com a minha saudosa avó na cabeceira (que na época já era viúva), oportunidade na qual se festejava aquela data, com uma ceia de Natal onde não faltavam os assados e o indispensável bacalhau cozido à portuguesa, ao qual se seguiam inúmeras sobremesas com as quais nos deliciávamos constituídas de frutas, de doces, onde pontificavam as frutas cristalizadas, as nozes, as avelãs, os figos, as passas, onde também não faltava a aletria, as rabanadas e as castanhas, tudo isso acompanhado dos vinhos (isso só para os adultos) e dos sucos e dos refrigerantes, deixando-nos (as crianças) envolvidos naquele ambiente familiar e acolhedor, onde não faltavam lembranças de outros Natais e das pessoas que ali já não estavam, ou porque não tinham podido vir, ou porque tinham emigrado, ou mesmo por já terem falecido. Eram momentos de encanto e de emoção e que eram aguardados por todos, durante o d! ecorrer do ano, para ali serem vividos com todo o entusiasmo e fervor. Lembro, claramente, que a minha mãe tinha que fazer um esforço todo especial para me fazer dormir tal era a ânsia de saber o que o Pai Natal iria trazer após a meia noite e, logo nas primeiras horas do dia seguinte, o Dia de Natal, acordava, pedindo à minha mãe para me levar até à lareira para descobrir o que o bom velhinho tinha deixado.

Posteriormente, tendo passado a viver no Rio de Janeiro, para onde nós emigramos (isto há 53 anos), as tradições a que nos tínhamos acostumado desde essa tenra idade, continuaram a fluir e passamos a nos encontrar na casa de minha tia Rosa, no Rio Comprido, onde ela fazia questão de reviver as tradições e o ambiente familiares a que estávamos acostumados desde Oliveira do Douro. O tempo foi passando e as pessoas mais velhas foram nos deixando, outros novos membros da família foram chegando, mas eu continuo a exercitar a minha memória e a relembrar os momentos tão felizes e significativos que a infância me deixou nessas comemorações natalinas, procurando transmi! tir a meus filhos, à minha neta, aos sobrinhos e aos meus familiares, esta tradição tão cristã e portuguesa, fazendo reunir na minha casa todos eles, na expectativa de que as crianças de hoje possam vir a ter os momentos de felicidade e de encanto que eu pude usufruir naqueles Natais da minha infância e que me marcaram definitivamente por toda a vida. O Natal é, sem sombra de dúvida, uma festa de amor, de compreensão e de paz, sentimentos que devemos preservar e que as crianças conseguem nos transmitir melhor do que ninguém. Feliz Natal!


Eduardo Neves Moreira
Ex-Presidente do Conselho Mundial das Comunidades Portuguesas

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