|
08/JAN/2007
Religião e Sociedade
Mística – O Futuro da Religião e da
Sociedade
A religiosidade cada vez se autonomiza mais numa necessidade de
diferenciação mais individualizada. O mesmo se dá na política.
Esta, como a religião, está demasiado preocupada consigo mesma
para poder notar as verdadeiras necessidades do povo. O que neste
artigo refiro a respeito da religião pode-se aplicar às
instituições políticas.
Na Alemanha a percentagem de pessoas que se declaram religiosas
corresponde à percentagem de votantes nas eleições para o
parlamento; isto não quer dizer que as pessoas que votam são as
mesmas que se declaram religiosas. Seria interessante uma
investigação nesse sentido.
À secularização segue-se a individualização.
As pessoas manifestam diversas necessidades de salvação a que
correspondem diferentes necessidades espirituais implicando
diferentes espiritualidades e diferentes práticas..
O acesso ao religioso pode dar-se de forma cognitiva ou
experimental. Nas espiritualidades mais que o acto cognitivo
religioso predomina o dado experimental, a experiência religiosa,
com carácter específico pessoal. No mundo católico conhecem-se
várias espiritualidades: salesiana, jesuíta, dominicana,
franciscana, beneditina e outras. Estas porém andam ligadas
geralmente a ordens e congregações com um público reduzido. As
paróquias, duma maneira geral, não estão preparadas para responder
a muitas das necessidades espirituais mais individualizadas das
pessoas. Limitam-se a oferecer serviços litúrgicos indiferenciados
para a generalidade. As instituições estão mais preocupadas com a
ocupação de lugares e funções à margem dos destinatários.
De momento observa-se na sociedade uma grande procura de
espiritualidades, novas formas de ser e de estar, emancipadas das
instituições que até agora possuíam o monopólio da organização e
da responsabilidade. A consciência humana pretende dar um passo em
frente no seu desenvolvimento. As instituições terão de se
humanizar não chegando continuar a justificar-se pelo seu fim em
si. Doutro modo carregarão sobre si mesmas a responsabilidade de
se tornarem elas mesmas em impedimento do desenvolvimento
individual! O anonimato económico, social e estrutural tornou-se
de tal modo insuportável que, se as instituições estabelecidas não
se preocuparem em dar verdadeiras respostas ao homem todo, no
respeito efectivo pela sua dignidade, provocará comportamentos
insuportáveis.
Ao non sens da nossa vida civil corresponde maior procura de
valores perenes e o surgir de novos indicadores de religiosidade.
Não é suficiente o aspecto cognitivo da religião -a abordagem
racional, o aspecto da experiência - o aspecto vivencial,
manifesta exigências duma religiosidade mais diversificada. Esta
expressa-se nuns como um “sentimento da presença de Deus”, noutros
como o”sentir um poder sagrado na natureza”, noutros como “o
sentimento de que defuntos estão presentes”, noutros ainda como a
“vivência da unidade” ou como “uma relação pessoal com Deus”, etc.
Por todo o lado se assiste a uma privatização da religião
acompanhada da sua desinstitucionalização. O mesmo processo se dá
na política. O teólogo Karl Rahner afirma mesmo:”O devoto de
amanhã será um místico.”. A religião é cada vez menos transmitida,
menos experimentada directamente e por isso menos presente. A
complexidade quer da religião cristã quer da política cada vez se
distanciam mais do povo devido à sua incapacidade de ser povo, de
ser eu-tu-nós e ao facto do povo não ter hipótese de compreender
fenómenos complexos e de cada vez estar mais condicionado pela TV
que fomenta a opinião sem noção, uma atitude infantil contra o
saber, um subjectivismo analfabeto. Se no século passado terá
dominado em alguns meios o aspecto folclórico de Fátima, futebol e
fado hoje torna-se cada vez mais digno de salão o espírito plebeu
duma Televisão cada vez mais mata tempo e distraccão vulgar.
A vivência religiosa através da experiência é diferente do
sentimento religioso através da reflexão cognitiva. No futuro será
mais importante a experiência da religiosidade. Aqui está mais
presente a experiência do que o acto cognitivo. Naturalmente que
na experiência religiosa não faltará o elemento objectivador da
reflexão. Este porém não se pode identificar com a experiência
mística. A reflexão manca sempre atrás da experiência mística. O
aspecto cognitivo a que a pessoa religiosa se encosta, o tipo de
espiritualidade, pode constituir uma espécie de crivo. No âmbito
cristão diria mesmo que aí a experiência mística ganha um chão
possibilitador da individualidade e do nós, tal como na fórmula
trinitária cristã.
Neste sentido, as congregações e ordens religiosas terão de fazer
um esforço por tornar mais transparente e imediata uma
espiritualidade que, através da sua forma de vida conventual
conduz lentamente à experiência mística. Hoje essas jóias
escondidas nas ordens terão que ser manufacturadas de tal forma a
serem apreciadas por um tipo de ser humano apressado e que não
suporta muito tempo de preparação, de ascética ou catarsis, dado
querer chegar logo ao essencial, à vivência fundamental.
Naturalmente que os iniciados no religioso e no numinoso não
poderão correr o perigo de, para democratizar tudo, arranjarem
atalhos que poderiam levar a identificar uma experiência
sentimental com a experiência mística. Esta implica que a pessoa
passe pelo cadinho do grande deserto místico e não seja confundida
com uma espécie de orgasmos duma mera experiência sentimental, ou
dum acto cognitivo. Diria que a experiência mística se realiza
para lá de todos os limites, tal como o númeno que o espírito
concebe para lá do fenómeno, não o podendo expressar nem através
do entendimento nem através da experiência.
Também a vivência mística é inexprimível, fica na evidência da
própria experiência. O busílis da questão para os mais
responsáveis estará em ter uma antena para as diferentes
necessidades e consequentes espiritualidades e em criar ambientes
na paróquia onde as diferentes necessidades se possam formar e
tomar expressão em diferentes espiritualidades. A tarefa não será
fácil dado que muitas pessoas conseguem compreender o religioso
cognitivamente mas não o relacionam com uma experiência religiosa
e vice-versa.
Hoje já não é a igreja a única transmissora de valores e de
auxílio para a vida. Os meios de comunicação social assumem cada
vez mais esta função. Dado que a nossa sociedade é dominada pela
mentalidade utilitarista não é de esperar para ela muitos impulsos
da Igreja ao contrário do que acontecia no passado. Hoje a
sociedade deixa-se distrair com a excitação cíclica que os Media
oferecem, assumindo eles ao mesmo tempo a função de cano de
escape. O resultado será a escuta e a nova criatividade que se
pressuporá para o novo tipo de instituição.
Da ordem dialéctica para a ordem mística
A Igreja terá de se preocupar mais com a sociedade e menos consigo
mesma. Doutra forma cada vez dará menos impulsos à sociedade
perdendo assim a sua relevância. A pessoa terá de deixar de ser
considerada objecto para se tornar sujeito. O cristianismo iniciou
a era do sujeito mas informando-a na ordem dialética
platónico-aristotélica. Esta foi por assim dizer a era de Jesus. A
nova era do cristianismo, o novo Natal, será menos religiosa mas
mais cristã, nela se iniciará a ordem mística, a era do Cristo.
Aqui o ser religioso realizará o encontro do Cristo no Jesus, o
encontro do divino no humano. Os tempos já estão maduros para tal.
Doutro modo a Igreja continuará a ocupar-se mais com a pedagogia
do que com a Verdade, mais com o cognitivo do que com a
experiência à semelhança dos professores que de tão preocupados
com a pedagogia se esquecem dos conteúdos a transmitir. Ao
persistirem em continuarem assim, transmitem a impressão aos
externos de que religião é algo importante até um certo grau do
desenvolvimento.
Hoje é visível e latente uma nova religiosidade que terá de ter
resposta com novas iniciativas. Estas devem ser dirigidas
especialmente à mulher. De facto a mulher está mais perto do
integral, do global e por isso mesmo da mística. Como penso que
neste novo século a mística ganhará maior espaço social, nele será
muitíssimo importante a integração da feminidade. De facto, no
século XXI a mulher porá o pé na porta da história não podendo
esta fazer-se sem ela. Naturalmente que o novo espírito, já não
dialético não se realizará na afirmação dos contrários, isto é a
afirmacao do homem não pode acontecer à custa da mulher nem
vice-versa. Já é tempo da Igreja Católica alargar a ordem do
diaconato à mulher e o sacerdócio a pessoas casadas. Não se trata
aqui de seguir o espírito do tempo mas de reconhecer os sinais dos
tempos através dos quais o espírito fala..
Lentamente nota-se a necessidade de se reconhecer a dialéctica
apenas como processo de abordar a realidade e não como a realidade
em si. Trata-se de integrar a lei positiva e a lei natural. Já vai
sendo tempo de se transcender a mentalidade polar, masculina não
para o outro extremo polar da feminidade mas para a sua síntese
num novo processo histórico e humano de realização e afirmação que
seria o processo místico integral.
A reespiritualização da sociedade embora com um cunho feminino
terá de ser na bipolaridade integrada, tornando-se mais feminina
(consciente da sua bipolaridade masculina e feminina equilibradas)
no que ela tem de intuição mística.
Os administradores externos do religioso em certos lugares já se
esfregam as mãos ao verificarem que hoje as necessidades
religiosas se tornam mais visíveis na sociedade, mesmo através de
expressões laicas das mesmas. Isto é porém a reacção ao processo
erosivo e mesmo ao descarrilamento em que se encontra a sociedade
ocidental. A religião embora apática e desajustadamente reage
contra a entropia.
A sociedade, tal como as instituições, continua a viver dos
rendimentos, na inércia. A procura de religiosidade manifesta por
muita gente é uma reacção de pessoas mais sensíveis aos sinais dos
tempos que não pode ser mal-interpretada; ela é também contestação
do status quo, é a afirmação da necessidade de metanóia das
instituições e do processo de pensar. A nostalgia pela tradição,
pelo testemunho são uma reacção, são primeiramente uma contestação
ao mundo fútil, que humilha o ser humano reduzido-o a material
utilizável.
De facto a consciência humana não aceita viver muito tempo na
contingência do acaso. Este exagero provoca uma procura instintiva
de Deus atendendo a que a essência da pessoa está condicionada à
procura do sentido. O eterno problema: de donde vimos e para onde
vamos? A marca indelével da chamada à presenciacao do espírito
acompanha sempre a pessoa na propulsão do espírito contra o
niilismo redutor. As paróquias não poderão esperar uma
revitalização da religiosidade popular. O aspecto folclórico é
importante, mas a nova consciência humana latente na ciência e na
religião exigem um salto qualitativo nas mentalidades e no
comportamento e actuações das instituições; é urgente uma nova
mentalidade. Esta não suportará a criação dum tipo de padres
caixeiros viajantes a correr de paróquia para paróquia. Não se
pode permitir que padres se reduzam a bombeiros. Nesse activismo
despersonalizar-se-iam e despersonalizariam as comunidades
reduzindo-as a entidades formais e não viveiros de vida. O ser
humano do novo século, do novo milénio merece mais. Precisam-se
menos funcionários – coveiros. Há falta é de parteiras.
A nova exigência corresponde a uma nova espiritualidade, a uma
espiritualidade cristã, mais mística e menos grega. O espírito
grego, assumido com a igreja de Constantino já chegou ao extremo
na sua polaridade. Agora espera-se o advento da igreja mística.
Deus não se encontra só na bíblia ou na religião; ele manifesta-se
em tudo e em todos.
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
|