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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

15/DEZ/2006

 

Gritos e Ecos

Uma das marcas mais fortes da sociedade portuguesa é a fantástica sucessão de gritos políticos, em geral sem consequências que não sejam uma vaga de ecos descaracterizadores. Escuta-se um noticiário, lê-se um jornal, e lá surge um qualquer novo grito, por rápido seguido de mil e um inúteis ecos.

Um destes mais recentes gritos foi o da corrupção, tema a que se referiu o Presidente Cavaco Silva no seu discurso de 05 de Outubro. E, tal como se deu com Kennedy quando Nikita Krushev propôs a coexistência pacífica, dizendo aos seus colaboradores que era um raio de proposta que se não podia recusar, também os partidos do designado Centrão - PS e PSD - não pararam de debitar ecos daquele grito das comemorações da fundação da República.

Mas pode vir a acontecer o que se tornou regra muito geral no seio da sociedade portuguesa: bem poderá tudo ficar em nada, mau grado se falar desbragadamente sobre o tema, e até se operarem mudanças legislativas diversas. De resto, sempre tem sido assim: surge o grito, depois as réplicas ecoantes, as supostas mudanças, com tudo a ficar na mesma, ou até pior. Por isso se chegou ao estado que é o do Portugal de hoje.

Um destes recentes gritos, pior que os recentes de Roberto Alagna no Scala de Milão, foi o do tristemente célebre caso do procurador especial, trazido para a discussão das ideia judiciárias por Ricardo Rodrigues, da bancada parlamentar dita socialista.

Como seria de esperar, os ecos de pronto surgiram, e dos quadrantes mais diversos, deixando o Partido (designado de) Socialista num verdadeiro deserto político. E como tudo apontava para o cumbo da triste ideia pelo Tribunal Constitucional, o deputado socialista lá deitou mão dum outro mecanismo jurídico: a Assembleia da República passa a poder constituir-se como assistente, designando um mandatário, em casos de homicídio qualificado de membros de órgãos de soberania. Sendo diferente, a verdade é que, também aqui, o Partido (designado de) Socialista ficou sozinho na votação.

No meio de toda esta tempestade de gritos e ecos, lá chegou de Bruxelas mais um relatório da Transparency International: Portugal está entre os países com menos subornos, mas as situações que alegadamente ocorrem afectam, sobretudo, a vida pública. No fundo, aquilo de que quase todos, e de há muito, sempre vêm falando, se se exceptuar a primeira parte da conclusão, que é inversa da opinião largamente dominante no seio da sociedade portuguesa, e se pode conhecer pela sondagem diária que cada um vai fazendo, através das respectivas convivências.

Se a tudo isto se juntar o último e significativo grito de Francisco Pinto Balsemão, sobre os perigos de certas mudanças no domínio da comunicação social, acabando, de facto, por instituir uma verdadeira censura à posteriori, bom, percebe-se bem o risco que Portugal pode estar a correr nos dias que passam.

Ver-se-á, no futuro, se o sonho de Ricardo Rodrigues virá a tornar-se realidade, conseguindo, com o apoio do PSD, a essencial alteração constitucional destinada a criar, finalmente, o entre nós perigosíssimo cargo de procurador especial. Cá se fica à espera dos alaranjados ecos deste grito do deputado Ricardo Rodrigues.


Hélio Bernado Lopes

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