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12/DEZ/2006
Uma Inevitabilidade
Quando hoje me liguei à INTERNET, sobretudo com a finalidade de
saber o se passava no Mundo, dei de caras com a notícia de que
Augusto Pinochet havia recebido a extrema unção, na sequência de
um agravamento do seu estado de saúde, logo prolongado por uma
intervenção cirúrgica que parece, neste momento, quando escrevo
este texto, ter tido êxito.
Desde há dias, ao tomar conhecimento da sua declaração aos
chilenos pela voz de sua mulher, que me tomou a ideia um
pressentimento do fim, por parte de Augusto Pinchet. De resto, o
velho militar até se dispôs a receber os familiares das vítimas da
ditaduta que chefiou, sobre si assacando toda a responsabilidade
por quanto de mal possa ter ocorrido.
Nunca aprovei o tipo de comportamento das autoridades chilenas
depois do derrube do Governo de Salvador Allende, mas nunca vi
qualquer razão para não pôr um fim no estado a que as coisas
chilenas haviam chegado ao longo dessa governação. Fosse com
Pinochet ou com Merino, com Gustavo Leigh ou com Mendoza, a
verdade é que sempre o derrube daquele Governo de Allende teria de
vira a dar-se.
Sabe-se hoje também que os militares golpistas, e também lúcidos e
patrióticos, deram a Salvador Allende e sua família a oportunidade
de deixar o Chile por via aérea, mas que a mesma foi recusada, o
que tem também de compreender-se.
Depois que todo o caso ao redor de Pinochet teve lugar na sua
fatídica visita a Londres, não posso recusar que o ditador se
comportou com dignidade e sinceridade. E mesmo agora, nesta sua
recente entrevista, porventura a última da sua vida, não deixa de
assumir toda a responsabilidade por quanto se passou no Chile, mas
cuja defesa tinha de garantir, de parceria com os seus colegas que
encabeçaram o golpe militar.
Tenho também algumas dúvidas sobre se de si terá partido a ordem
de mandar matar, ou de algum modo fazer desaparecer, as tais três
mil pessoas, mas a verdade é que era obrigação sua ter em conta
que violências teriam sempre de poder vir a ter lugar e com grande
probabilidade.
Quando hoje se sabe que o Papa Bento XVI teve de ser um dos
membros da juventude hitleriana, mesmo para lá dos seus dezóito
anos do tempo, que margem de manobra lhe restava para lá de ter de
aceitar um tal lugar?
É claro que poderá sempre dizer-se que perante um Governo
legitimado pelo sufrágio popular e pela votação das duas câmaras
parlamentares do tempo, golpe algum devia ter tido lugar, mas a
verdade é que tudo tem um limite. E há níveis de desordem que,
ultrapassado aquele limite, acabam por deslegitimar o que antes
era legítimo. Foi o que se deu, por exemplo, na Argélia, após a
expressiva vitória da Frente Islâmica de Salvação. As coisas são
como são e são sempre deste tipo!
Muito diferente é o que entretanto veio a lume sobre ilícitos,
onde também os seus familiares mais directos terão estado
envolvidos. Negócios que terão envolvido muitos milhões de dollars,
e até algumas toneladas de ouro, bem como uma rede narcotraficante
internacional.
Mas também já hoje não estranho esta realidade por parte de quem
atinge o poder, agora que, num supetão, devorei o excepcional
livro de Eric Frattini, ONU - História da Corrupção, por onde pude
perceber que tudo quanto Pinochet e sua família possam ter feito a
este nível terá sido coisa simples.
Como sempre tomei por certo, nunca Augusto Pinochet, ou quem quer
que seja de sua família, deverá ser levado a julgamento ou
condenado. Com toda a sinceridade, nunca acreditei numa tal
possibilidade, mormente em torno das mortes e desaparecimentos das
tais três mil pessoas. Os factos parecem dar-me razão.
Hélio Bernado Lopes
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