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08/DEZ/2006
O Papa, a Turquia e
a União Européia
Tem constituído para mim uma hilariante constatação tudo quanto se
tem passado em torno da visita de Bento XVI à Turquia. E tem sido
assim, em face da fantástica autoflagelação que os agnósticos
portugueses vão diariamente praticando, pondo constantemente em
causa o Papa e a Igreja Católica, e tratando como coitadinhos os
crentes do Islão!
Em contrapartida, também os católicos praticantes portugueses não
vão fazendo muito melhor, limitando-se a nada dizer de mal sobre
os países onde o Islão é maioritário, mas pondo em causa a oração
de sapiência do Papa na Universidade de Ratisbona, a ausência de
um pedido formal de desculpa, ou a própria visita do Papa à
Turquia!!
Bom, sejamos realistas e sinceros: as sociedades ocidentais
europeias encontram-se em franca decadência moral. Tudo nelas,
supostamente em nome da democracia e da liberdade de escolher, se
pode fazer: nuns casos é o aborto, noutros será a eutanásia, mais
recentemente é o caso do bébés prematuros, noutras situações é o
casamento homossexual, já muito para lá da velha e histórica união
de facto, e também a perda do valor económico da vida dos mais
velhos. Uma sociedade que deixou de ter balizas morais: vale tudo,
e por isso não é nada!
Como aos mais lúcidos se torna evidente, qualquer moral que se
pretenda que realmente funcione tem de possuir na sua rectaguarda
uma religião. É o que acontece nos Estados onde o Islão é a
religião oficial. Mas não é o que se dá nos Estados da União
Europeia, onde a estrutura religiosa está completamente
obliterada, quando não é mesmo espezinhada.
Há que colocar esta questão, que parece estar esquecida: que
razões levam a Turquia a tanto desejar entrar para a União
Europeia, mas que geram no seio desta a apreensão que
constantemente se pode ver? É uma questão pertinente, até porque a
mesma traduz um sistema político dinâmico em forte
desequilíbrio...
Este desequilíbrio é o que deriva desta realidade simples: a
Turquia, com os seus setenta milhões de habitantes, passará a ser
o maior Estado da União Europeia, com todas as consequências daí
advindas; e por ser um espaço onde o Islão está omnipresente,
embora num Estado que é constitucionalmente laico, sempre um
conflito de natureza religiosa poderá sobrevir.
Mas esta visita de Bento XVI mostrou já, e de um modo claro e
insofismável, que a intolerância religiosa é a marca típica da
sociedade turca, apesar da tal laicidade, de que as forças armadas
são o garante constitucional. Mostrou, por exemplo, a desproporção
entre a liberdade de produzir uma oração de sapiência e a de não
consentir um debate mínimo sobre o Islão, ou sobre Maomé.
Mas também mostrou a completa incapacidade dos turcos para
enfrentar coisas que não podem hoje ter valor palpável, como se dá
com o caso de Chipre, em que se operou claramente um incumprimento
do acordado, ou com a aceitação plena, própria de quem queira
estar de boa fé no seio da União Europeia, do essencial princípio
da liberdade religiosa: na Turquia está ausente o princípio da
liberdade religiosa, tal como a sua plena observância. Um tema que
até se compreende historicamente, mas para que tem de se garantir
alguma clarificação.
Esquecem-se os críticos do Papa e da Igreja Católica, sempre
brandindo o caso da Inquisição, que também a Turquia possui na sua
história o genocídio dos arménios, sem que nunca tenha sido capaz
de reconhecer publicamente a sua responsabilidade em tal acto, não
conseguindo, no mínimo, fazer como se viu a João Paulo II, que foi
pedir perdão a Deus e ao Mundo pelos erros da Igreja Católica.
Os Estados onde predomina o Islão não são dirigidos por parvos, ou
por idiotas. De há muito perceberam que a União Europeia de hoje é
um espaço de fraqueza no plano dos princípios, resvalando em tudo
o que é essencial, desde a fé ao valor da vida, aos poucos
adoptando o desumano modelo neoliberal, onde só o dinheiro, o
lucro e o interesse têm valor. Pelo caminho de vivência da nossa
liberdade, o que aí vem pode bem ser o tempo do Islão, mesmo que
não seja pela presença turca na União Europeia...
Hélio Bernado Lopes
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