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11/DEZ/2006
ALERTA ESTÁ?
Quando neste aniversário recente da Independência de Portugal me
dirigia ao meu café usual, logo após o almoço, onde iria pensar no
que daria à estampa na próxima edição dos jornais com que
colaboro, eis que me deparei com a antecipada edição do EXPRESSO,
em cuja página inicial se podiam ler, sensivelmente, estas
palavras: alerta nacional na droga.
Por um acaso do arco da velha, ao olhar esta frase, dei-me conta
de que saía da papelaria onde estava o exemplar do jornal com
aquele título um casal que de há muito conheço como
narcotraficante. Não porque seja um agente secreto, claro está,
mas porque tenho olhos e porque acabei um dia, por um mero acaso,
por descobrir certa realidade que de há muito percorre a sociedade
portuguesa.
Deitei-me a rir, o que fez com que o casal, que também me conhece
de vista, tenha feito oscilar o seu olhar entre o que se noticiava
no jornal e o que da minha voz ecoava, agora que marido e mulher
sabem já o fantástico autobarrete que eles, e muitos outros como
eles, enfiaram com essa treta do agente secreto.
A minha risada, porém, nada teve que ver com o surgimento do
casal, mas com o valor do que o jornal noticiava: alerta nacional
na droga! Mas alerta porquê?! Será que alguém poderá ter pensado
que o consumo de estupefacientes no seio da sociedade portuguesa,
a sua passagem pela mesma, nomeadamente a caminho da globalidade
do País e desse vasto espaço da União Europeia, venham eles do
continente africano ou do subcontinenta americano, não vem estando
em franquíssimo crescimento?!!
De resto, esta minha reacção foi em tudo idêntica à que em mim
teve lugar logo que ouvi um jovem da claque do Porto, ao ser
inquirido sobre o que se dera com um seu colega, mas da claque do
Benfica. De um modo natural e muito inteligente, o jovem portista
mostrou-se admirado com o que ao longo do dia se foi noticiando
sobre o seu congénere lisboeta: não compreendia todo o alarido da
comunicação social em torno do tema, porque traficar droga é um
acontecimento que tem lugar por todo o País! Uma evidentíssima
realidade, que completou com a aquiescência de que natural é
também que o fenómeno possa ter lugar por mil e uma outras
claques. A evidência, caro leitor. A evidência!
Ao rir-me do modo como se noticava o que desde sempre se tem
podido ver, ocorreu-me aquele grito da soldadesca do antigo
Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, em Campo de Ourique,
no meu tempo de juventude, quando com os meus colegas me
entretinha a discutir política, religião, filosofia e tantos
outros temas, mas onde não tinha lugar, ao menos como notícia, o
que quer que fosse sobre estupefacientes. O que se ouvia, a um
ritmo temporalmente cadenciado, era o velho grito dos soldados:
alerta está?
Hélio Bernado Lopes
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