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23/NOV/2006
De Cidadãos para
clientes - O Estado partidário em Crise
O Ressurgir duma Nova Consciência
Burguesa (Parte 1)
O vulcão da religião estremece por todo o lado podendo vir a criar
grandes convulsões no mundo. De momento, a Europa acorda e Deus
levanta o dedo!
Com a queda do muro de Berlim em 1989 a secularização recebe um
grande abalo e as ideologias marxistas perdem o seu encanto. Com a
bancarrota do sistema soviético o mundo modifica-se. A política e
as elites desacreditam-se. O fanatismo religioso e ateu
acentuam-se. Por um lado assiste-se a uma fé infantil cordial e
por outro a uma crença arrogante ateísta racionalista. Uns vivem
da fé “Deus criou o homem” outros da crença “o Homem criou Deus”.
Os tempos que correm são propícios para fanatismos. A crise e o
medo fomentam o sentimento de pertença. O movimento de Fátima
parece ganhar razão.
A Europa que no século XIX tinha processado Deus (Marx, Nitzsche,
etc), no século XX executou-o, colocando no seu lugar a deusa
Liberdade.
As sementes lançadas no século XIX e a proclamada morte de Deus
transformam o século XX no mais sangrento de todos os tempos que
culminou na “segunda guerra mundial, atiçada por ateístas
radicais”,( Wolfram Weimer, in “Credo”).
Com a experiência das guerras a política consegue triunfos a nível
material e mais desilusão a nível humano. A classe política parece
ter chegado aos seus limites tornando-se cada vez se menos
credível. Desiludidos de Deus e da burguesia, os políticos já não
têm convicções, são frios. A convicção e a paixão cada vez se
encontram mais da parte do povo, duma camada média, a burguesia
maltratada que parecia já ter perdido o espírito.
Hoje, essa “burguesia”, da qual sempre dependeu o desenvolvimento
cultural das sociedades, começa a redescobrir-se e a afirmar-se
religiosa. Isto tem muito que se lhe diga porque ela é que arrasta
a carroça social, e é determinante no seu meio, intervindo e
assumindo sempre responsabilidade histórica no desenvolvimento. O
resto segue ou aproveita-se mais ou menos inconscientemente da
caravana, vivendo de filosofias coniventes com as próprias
carências, à medida das necessidades do dia a dia. As elites
começam a acordar da Bela Adormecida. Da nova burguesia surgirão
os caudilhos de amanhã que porão o mundo na sua ordem.
Se é verdade que o pão é que mata a fome, não se pode desprezar o
facto de que o ser humano traz consigo a fome do espírito, a fome
da transcendência, que reconhece como sua coluna vertebral. A
necessidade é determinada pela camada média da sociedade, pelos
que já têm o suficiente para estarem disponíveis a poder pensar.
As orgias intelectuais ideológicas contra a burguesia e seus
valores já não entusiasmam nem convencem, desqualificando-se e
auto-marginalizando-se. Até à década de 90 viveu-se um tempo de
adolescência interessante. Só que os adolescentes de então, os
socialistas de ontem ocupam hoje as chefias da banca, das
administrações públicas, do jornalismo e mesmo de muitos lugares
da indústria.
O processo decadente que se deu no sistema comunista soviético
repete-se na sociedade ocidental nos seus representantes
institucionais. Nos sistemas socialistas há sempre uma pesada
administração totalmente controlada por uma pequena nomenclatura
ideológica todo-poderosa. Nos tempos que correm e que são de
miséria ideológica e social, é utópico e míope querer reduzir-se a
política a administração, tal como naquele sistema. Os socialistas
do lado de cá, do post real-socialismo, e os superficiais
conservadores sem espírito têm-lhe seguido as pegadas, acreditando
todos numa sociedade planificável o que os têm levado a fomentar o
poder das administrações e da burocracia. Ainda não notaram que o
muro de Berlim já caiu. Ele caiu historicamente mas ainda não caiu
nas cabeças de muitos políticos e intelectuais. Isto emperra o
andar da história, tornando-se muitos dos progressistas, nos seus
empecilhos. Sócrates luta contra este demónio bem instalado mas
falta-lhe a água benta e o testemunho.
Falta a reflexão e a empatia. A política empírica instalada dá
lugar a uma espécie de nepotismo ideológico à maneira de
establishment formal. Na política repete-se o que muitas vezes
acontece no casamento. Uma pessoa enamora-se e, sem preparação,
casa-se. Depois arranja-se e, finalmente, divorcia-se, deixando
atrás de si um montão de cacos.
O pensamento que está por trás da política a partir dos anos 60
partiu dum falso pressuposto: destruir o espaço religioso e os
valores da burguesia para criar um espaço livre da política onde o
cidadão indivíduo se possa desenvolver sem entraves nem
responsabilidades. Como se observa pela crise cultural e de
valores em que vivemos, essa ideologia deu barraca mas o
infantilismo continua. A política, ao arrogar-se para si o
sentido, perdeu o sentido do político. Ao açambarcar para si o
espaço da liberdade destrói a Liberdade, o último sentido da
política. Como a acção política se reduz a administrar renuncia-se
à argumentação política. Equivocou-se ao transformar o (Estado)
espaço livre de actuação dos cidadãos numa instância paternalista
em que se vinculam uns conglomerados de cidadãos proletários, de
prosélitos e se distribuem benesses a clientelas. Pela crise vê-se
que isto não chega para fazer política. O século XX cometeu um
grande erro: desconhecer o conceito de cidadão desonrando-o ao
transformá-lo em cliente em proletário do Estado, à disposição dos
partidos, que se apoderaram do Estado. Já os regimes socialistas o
tinham reduzido a proletário. Assiste-se quer no sistema marxista
quer no sistema ocidental à instrumentalização, politização total
do ser humano. A liberdade começa onde a lei acaba. A política
tinha-se esquecido de Platão e do Catolicismo que recordam: quem
suprime Deus e a Verdade acaba com a política e destrói o Homem!
Toda a cultura é filha da religião e a nossa cultura é filha da
religião judaico-cristã depois de muitos anos de ruminação e
integração doutras culturas em especial a greco-romana. Quem, com
responsabilidade política e cultural não reconhecer essa
realidade, como o ser da sua forma de estar, descarrila-se e não
chega a lugar nenhum. A crença religiosa e a crença ateísta se
querem tornar-se responsáveis terão de se dar as mãos. As duas são
filhas do mesmo pai, o cristianismo. Trata-se de assumir juntos a
responsabilidade do futuro para o realizar e possibilitar. Com a
queda da civilização cristã o mundo ficaria às escuras. Trata-se
de a aperfeiçoar, sublimar e pôr ao serviço da humanidade e do
Homem em sintonia e sinergia de esforços.
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
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