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17/OUT/2006
A minha visão sobre Salazar
Ultimamente a figura de António de
Oliveira Salazar tem vindo a se transformar numa fonte de
inesgotáveis discussões que ocupam espaços na Internet, bem como
se apresenta entre os temas preferidos nas reuniões informais
entre os cidadãos portugueses. A razão principal dessa ocorrência
prende-se ao facto da sugestão da criação de um Museu a ser
localizado na casa onde nasceu e residiu o dirigente de Portugal,
que governou o país e o destino dos portugueses por mais de 40
anos. Outro razão pela escolha do tema é a próxima estréia do
programa televisivo "Os Grandes Portugueses" a ser levado ao ar
pela RTP, no qual, na lista inicial não constavam, o nome de
Salazar, nem o de Marcelo José das Neves Alves Caetano.
Eu, praticamente, posso afirmar que não vivi sobre o regime
imposto por Salazar aos portugueses. Embora nascido no Porto e
tendo vivido os meus primeiros sete anos em Portugal, deixei o
país em 1953 acompanhando os meus pais na esperança emigrante que
povoava o sonho da maioria dos portugueses. A razão da saída de
meu pai em busca de melhores condições de vida no estrangeiro,
prendia-se em parte à vontade de oferecer melhores condições de
vida à família e a decepção que tinha pelas atitudes desastrosas
para a sua vida profissional pelo política econômica de Salazar
que, ao instituir o calçado nacional popular, inviabilizou o
fabrico de calçado de nível superior, levando à falência a empresa
que meu pai dirigia. De certa forma posso afirmar que a minha
vinda para o Brasil, deveu-se a essa medida salazarista. Era razão
mais do que suficiente para nutrir-lhe o maior desprezo e
antipatia pelo sua governação. Entretanto o tempo e a vida me
fizeram ter a oportunidade de ler e meditar muito a esse respeito
e hoje, quando ultrapassei o período de formação universitária, a
minha carreira profissional, o meu envolvimento no serviço público
brasileiro ao qual servi orgulhosamente por 22 anos e a minha
experiência como emigrante ao presidir o Conselho Mundial das
Comunidades Portugueses e ao ser Deputado na Assembléia da
República, me permitem ter uma visão ampla e isenta sobre a figura
de um dos maiores portugueses que Portugal já possuiu e que a sua
acção deve ser fruto de uma análise por todos os que pretendem
conhecer algo sobre o Portugal de hoje em que vivemos e no qual
acreditamos.
Salazar, após o seu período de estudante universitário durante o
qual despontou como um aluno exemplar, foi convidado, logo ao
concluir a sua formação, para lecionar na Universidade de Coimbra,
tornando-se um defensor dos interesses dos estudantes e um
mediador entre a direcção universitária e o Centro Acadêmico. Era
querido e estimado pelos alunos que viam nele um líder na defesa
de seus interesses. Estimulado pelos seus alunos concorreu ao
cargo de Deputado sendo um dos mais jovens parlamentares que
tiveram assento no Parlamento de Portugal. Lá foi um defensor da
democracia e do direito, revoltando-se com o nível de despreparo e
de corrupção que grassavam entre os seus pares a ponto de rasgar
em plenário o seu diploma de Deputado. Quando da revolução militar
comandada pelo marechal Gomes da Costa, fez aos seus dirigentes
pesadas críticas e acusações, que ao invés de lhe trazerem
problemas pessoais, acabaram por levar os militares e
convidarem-no para integrar o Ministério. Portugal, vivia um
período altamente conturbado pois de 1917 a 1926 tinham ocorrido
no país 132 levantes armados, nunca se sabendo por quanto tempo um
governo poderia exercer as suas funções tal era o quadro de
desordem e de questionamento que imperava, não permitindo a
adopção de qualquer política ou planeamento adequado. A dívida
externa era enorme e crescia a nível galopante, deixando em dúvida
a própria viabilidade do país como nação independente. Salazar,
após dois anos como Ministro e como não tinha o apoio que entendia
necessário por parte dos militares, acabou por renunciar e quando
solicitado a explicar a sua renúncia, convidado a permanecer no
posto condicionou a sua permanência no poder desde que como
Primeiro Ministro com poderes extraordinários e sem a presença dos
militares no governo, no que foi surpreendentemente atendido pelos
mesmos, tornando-se a partir de então o dirigente máximo, com
poderes ditatoriais, de todos os portugueses.
A verdade não pode nem deve ser omitida e Salazar, no decorrer dos
anos, acabou por dar ao país a tão desejada estabilidade e a
recuperação financeira de sua economia, fazendo com que o país
pagasse a sua imensa dívida externa e transformando o escudo na
moeda mais estável do mundo e com o maior lastro em ouro entre
todas as demais. Não podemos de deixar de reconhecer a sua
capacidade como financista e como organizador do processo de
recuperação interna de uma economia que estava totalmente
desorganizada e um país que se encontrava à beira do abismo. A
dependência económica para com a Inglaterra era de atemorizar a
qualquer um. Certamente muitas outras coisas podem e devem ser
alvo de críticas negativas e não há dúvidas de que, durante o seu
período governamental a economia não andou tão bem assim, as
relações internacionais, devido à independência das posições que
Salazar sempre adoptou não aceitando o jugo de nenhuma potência,
acabaram por não permitir obter os apoios tão necessários ao
desenvolvimento das políticas com o concerto das nações, etc., mas
o que mais causou questionamento foi exactamente a acção
ditatorial repressiva adoptada e que acabou por fazer inúmeras
vítimas e o afastamento de muitos cérebros importantes ao
desenvolvimento nacional. A falta de uma flexibilização do
exercício discriminatório do poder, acabou por criar um clima de
ódio por parte daqueles que se sentiam perseguidos, situação que a
meu ver poderia ter sido minimizada com uma política de abertura e
de diálogo com as oposições. Certamente que se eu, tivesse vivido
aqueles momentos da vida nacional, acredito que teria me colocado
contra o estado de coisas vigente à época por achá-lo negativo
para o futuro do país, mas não posso deixar de reconhecer o valor
ímpar da figura de Salazar como um grande português, um homem
inteligente, um idealista, um homem determinado, um homem
extremamente honesto e uma pessoa que dedicou toda a sua vida ao
serviço da pátria e do povo português.
Eduardo
Neves Moreira
Ex-Presidente do Conselho Mundial das Comunidades Portuguesas
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