|
30/SET/2006
Do Deserto da Transcendência à
Desumanização do Ser Homem
“ Não agir segundo a razão, não agir segundo o logos, é
contrário à vontade de Deus”.
Isto questiona não só a compreensão islâmica e mas também a de
muitos guerrilheiros.
Há quem comece a fazer comparações desvantajosas entre o Papa João
Paulo II e Bento XVI tirando ilações menos adequadas. Enquanto que
João Paulo II acentuou primordialmente a moral na sua acção, o
novo Papa acentua a questão de Deus (a teodiceia), a teologia na
relação fé – razão. Não é do seu estilo (ocupar-se com coisas
menores) moralizar nem condenar os moralismos inerentes a regimes,
mundivisões, culturas, religiões ou políticas. Ele concentra-se no
essencial, no primordial.
Numa opinião pública (oriental e ocidental) em que o banal é
critério de orientação o homem erudito só poderá ser
mal-entendido. Só estorva, pelo que é necessário arrumar com ele
mediante um louvor ou uma crítica, numa palavra, o essencial está
a mais…
BentoXVI não vem advertir ou proibir. Ao mesmo tempo que admira a
beleza e o erótico da fé bíblica, ele não considera a cultura da
época moderna má ou ateia. Ele reconhece o desenvolvimento do
pensamento moderno, ao contrário daqueles que querem voltar aos
tempos anteriores à renascença ou ao iluminismo. Ele quer que a
ciência se liberte também ela de moralismos, de protagonismos para
se deixar orientar por uma razão completa que não exclua
metodicamente a questão de Deus da ciência. De facto uma ciência
que exclua a questão de Deus torna-se incapaz de dialogar com as
culturas. Para lá do folclore e da economia há algo mais. E uma
razão que só valoriza o empírico é encurtada. O ilustre
intelectual não quer ver a fé agrilhoada a uma razão prática
kantiana e “assim ser-lhe negado o acesso ao todo da realidade”.
Também critica a teologia liberal do século XIX que com o seu
método histórico-crítico reduzia muitas vezes a fé a uma moral.
Ele defende uma razão aberta não reduzida ao experimental, ou
melhor, a uma percepção sensorial redutora.
Naqueles que orientam a opinião pública, os dançarinos do sonho,
prevalece o músculo e a acrobacia sobre a maça cinzenta, nos
debates e nos Media.
O vulgo julga que religião é igual a religião e que Deus é igual a
Deus. Mas aqui é que está o problema central: a compreensão de
Deus é que separa o Cristianismo do Islão. Consequentemente o
conceito de Homem não é o mesmo para o Islão e para o
Cristianismo, o mesmo se diga do conceito de sociedade.
O Deus dos cristãos não age contra a razão nem se deixa reduzir ao
“razoável”. No cristianismo até os ateus se tornam seus profetas.
Tanto a ciência como a fé operam como parceiros, como correctivos
da razão. Naturalmente que será lógico que numa parceria razão -
fé não poderá haver lugar de imunidade para uma ou para outra.
O Islão, tal como o racionalismo iluminista extremo, relega Deus
para o deserto da transcendência. Aí não é permitida a interacção
entre Deus e o Homem. Esta é a compreensão que o papa vem
questionar. Ele pretende superar o pensar dialéctico no seguimento
dum pensar bipolar integrador do todo numa interacção dialógica do
ser e do estar (confrontar a interacção trinitária: matéria –
espírito - expressão). O iluminismo e o Islão ao separarem a razão
da fé cometem o erro do encurtamento. É verdade que com as duas
guerras mundiais o Homo europeus superou todos os medos passando a
experimentar na pele a ausência de Deus, dum deus que não
interferiu parecendo indiferente. Este equívoco porém, penso eu,
provem de gerações ainda presas ao pensar dialéctico que ainda se
não deram conta da nova época histórica da ciência iniciada por
Einstein e colegas. A discussão cristã da fórmula da vida
trinitária poderia ajudar a superar a ideologia dos opostos.
Trata-se duma realidade, duma fórmula e duma tentativa de
encontrar resposta para o ser e para o estar.
Permanece a esperança de que o Islão se deixará interpelar quando
os muçulmanos europeus ganharem peso no mundo árabe. Até agora têm
corrido o perigo de se serem reduzidos a seus tentáculos.
O que os conselheiros do Papa devem ter em atenção é que Bento XVI
não perca de vista os problemas concretos que afligem a Igreja.
Estes porém são ninharias em comparação com a crise do mundo
ocidental e em especial da Europa. No cristianismo que deu à luz a
Europa é natural que o representante do catolicismo, vendo os
problemas a nível global, tem mais competência para analisar as
questões globais do que aqueles que mourejam nas nacionalidades.
Ele sabe que como a civilização ocidental nasceu com o
cristianismo também morrerá com a morte deste. Como homem
universal está interessado na fé transcultural consciente porém de
que no Cristianismo se encontram todas as respostas às questões da
vida.
Também a razão terá que, no respeito pelos símbolos, purificar a
praxis mágica e sacramentalista.
Na sua viagem à Baviera o papa alemão apontou para os verdadeiros
problemas do futuro.
António da
Cunha Duarte Justo
Teólogo
http://blog.comunidades.net/justo
|