|
19/SET/2006
Bento XVI - O Homem corajoso da Europa
“O sangue não agrada a Deus”
A lição universitária pronunciada na universidade de Ratisbona (Regensburg)
sob o tema “relação entre razão e fé” ficará na história e
iniciará um período de maior coragem e transparência no diálogo
intercultural.
O mundo precisa urgentemente duma resposta à questão: qual é a
posição do Islão em relação à paz? O Papa está interessado num
diálogo sério que aposte na conciliação de razão e religião, na
complementaridade de ciências humanas e de ciências naturais.
Também não chega que a Europa se limite a viver duma indústria de
opiniões que abusa da liberdade de opinião. Por isso coloca a sua
argumentação a um nível histórico-teológico na tentativa duma
discussão clarificadora das diferenças e do que é comum às
religiões e às culturas. Ele pretende com isto provocar um repúdio
geral duma motivação religiosa da violência por parte de todos os
dignitários de todas as religiões. Para isso necessita-se dum
instrumento válido comum a todos, a razão, o logos.
O mundo cada vez se torna mais refém dum terrorismo que se
legitima religiosamente. Por outro lado os representantes
religiosos não tomam posição contra a violência. À sombra desta
vive muita gente poderosa sem escrúpulos sem se preocuparem com
destinos individuais e de povos nem com o desenvolvimento
histórico. Para a construção duma sociedade do futuro não é
suficiente apostar só na lei natural e na estratégia do silêncio
sobre a guerra santa e a violência. Através da história, a
violência tem sido encarada como meio legítimo para se afirmar e
dominar! Dos bons não reza a história...
O mundo islâmico radical sente-se provocado por um modernismo
demasiado grego que o contradiz na essência e o paralisa. Assim,
na sua acção prefere continuar a estratégia de expansão para o
exterior através da aquisição de direitos e de sabotagem e de
bloqueio interior. Segundo ele o modernismo seguido nos países de
cultura cristã tornou-se no exemplo de como uma cultura se
autodestrói. Preferem o homem açaimado à cultura fechada passando
ao repúdio incondicional do individualismo diletante da cultura
aberta ocidental e do seu materialismo. Aqui enfrentam-se dois
parâmetros imperfeitos e auto-suficientes sem perspectivas de
encontro. Por outro lado o mundo ocidental encontra-se em crise,
sem saber o que quer nem para onde vai. O problema demográfico
europeu leva-nos à situação do império romano entre o século III e
V.
Em momentos de crise o Papado revelou-se como defensor da Europa
no seu todo. Se antigamente eram as rivalidades senhoriais e de
nações que punham em perigo a Europa hoje são as rivalidades
ideológicas fechadas nelas mesmas, os egoismos e a consequente
crise de identidade. A Europa, inconsciente e esbanjadora dos seus
recursos culturais vive já dos rendimentos e não tem energia nem
autoridade para dar resposta às questões e aos problemas colocados
pela sociedade islâmica com uma grande espiritualidade e
vitalidade.
A reação do mundo ocidental ao mundo muçulmano tem-se situado
entre perplexidade, ignorância e descrédito. Este expande no meio
daquele e impõe-lhe os seus costumes. Em contrapartida na Turquia
e no mundo islâmico as outras culturas são totalmente
discriminadas segundo a divisa: em casa assimilamos e no
estrangeiro construímos gettos. Sabem o que querem e não se deixam
comprar, na consciência de que o futuro está do seu lado. Vivem
com Deus na consciência de que quem O respeita se respeita a si
próprio porque Este no idiário cultural é o próprio reflexo, o
alter-ego de pessoas e culturas… No Ocidente a indiferença e o
egoísmo pôs tudo à disposição em troca do Mamon; estamos de volta
aos tempos bárbaros… Se o Ocidente tem dominado com a força
económica e militar o Islão dominará com a sua força religiosa e
com a consciência de “povo”. Ambos terão um denominador comum, não
o respeito mas o medo. O Islão sabe que não é respeitado, que a
sua presença se torna constante no medo que já reina em toda a
Europa. Se outrora a sua melhor arma eram os cavalos hoje é o
medo.
Se é verdade que a aceitação da liberdade religiosa e do
pluralismo é algo que as religiões têm de aprender também é
verdade que o secularismo não se pode apenas afirmar na
incriminação das religiões.
Em geral no Islão a discussão teológica não é conhecida. A
discussão teológica sobre o Corão e sobre Maomé é mesmo proibida.
Maomé e o Corão são declarados tabus bem como a sua análise
histórico-cultural crítica. Mais que teólogos são juristas com as
suas escolas de interpretação própria. Deus enlibrou-se no Corão e
a única coisa que há a fazer é discutir a aplicação e as
tradições, isto é pode-se falar sobre ética e política familiar,
etc., isto porém no sector do direito islâmico, da scharia.
A ignorância crassa é constrangedora no que toca à discussão
pública sobre as religiões e na maneira como agora se distorce a
realidade dum discurso papal sem conhecimento do documento. Só
interessam títulos de jornais, o resto é preenchido pela fértil
fantasia superficial. O stress dos jornalistas não lhes permite
mais que a leitura duma página DIN4.
Naturalmente que as ameaças infundadas do mundo islâmico não se
fizeram esperar com ataques incendiários a igrejas, assassínio
duma freira e seu assistente num hospital na Somália, o propagado
“ataque ao Vaticano” pelo grupo terrorista “Armada dos
Mudschahedin” do Iraque, sindicalistas na Turquia, etc. A reacção
só vem dar razão ao discurso do Papa. A sua aula universitária era
dirigida àqueles que apelam à violência e àqueles que não têm
coragem de iniciar uma discussão séria para lá da hipocrisia e do
oportunismo que tem dominado nas relações inter-culturais entre os
contraentes. Ele queria iniciar “um diálogo sério e aberto no
respeito mútuo”. Naturalmente que uma leitura completa do
documento e a discussão séria viria perturbar aqueles que dum lado
e do outro esperam mais da força da violência do que da força dos
argumentos. Não querem passar à análise dos factos e das doutrinas
e preferem ficar-se pela censura e na irracionalidade dos
preconceitos.
Na sua aula acadêmica na universidade de Ratisbona sobre a relação
entre razão e fé, Bento XVI começa o seu discurso com uma citação
marginal do Imperador Manuel II em 1391 em que este discute com um
intelectual da Pérsia sobre a Guerra Santa (Dschiadd): O Papa
refere que o Imperador estava interessado na questão central da
relação entre fé e Violência e não apenas na discussão entre o
diferente trato entre crentes (monoteístas) e infiéis e por isso
na sua argumentação terá partido da Sura 2, 256 do Corão que diz
“não haja coação em questões da fé” , uma das suras mais antigas
do tempo em que Maomé ainda se “encontrava numa situação de
impotência e ameaçado” e por outro lado o imperador sabia que mais
tarde foram introduzidas no Corão as determinações sobre a “guerra
santa” passando por isso diretamente ao problema da questão da
relação entre religião e violência, afirmando de maneira rude
“mostra-me, o que é que Maomé trouxe de novo, e aí só encontrarás
coisas más e desumanas, ao pregar e prescrever o espalhar a fé
através da espada”. O imperador continuou argumentando que o
espalhar a fé com violência era absurdo e que essa fé se torna uma
contradição e afirma: “Ela está em contradição com o ser de Deus e
com o ser da alma”… “O sangue não agrada a Deus” e “não agir
segundo a razão é contrário ao ser de Deus”…”Quem quiser levar
alguém à fé precisa da capacidade de falar bem e dum pensar justo
e não de violência e ameaças”…
E Bento XVI continua a sua aula e diz “a frase decisiva da
argumentação contra a conversão pela violência é: central no
diálogo citado: "A frase decisiva nesta argumentação contra a
conversão pela violência é: "Não agir segundo a razão é contrário
ao ser (natureza) de Deus”. O Papa quer um diálogo sério entre as
religiões e as ciências e para isso precisa-se do instrumento
comum da razão. Bento XVI cita o Professor Theodore Khoury de
Munster que afirma que para o imperador, um bizantino crescido com
a filosofia grega isto é evidente, para a doutrina islâmica esta
frase não é evidente porque “para o Islão Deus é absolutamente
transcendente e a sua vontade não está ligada a nenhuma das nossas
categorias nem mesmo a da racionalidade”.
Nesta aula Bento XVI tira a legitimação religiosa aos islamistas,
o que os representantes do Islão não fazem.
Por outro lado o Santo Padre ao questionar algumas determinações
do Corão sobre a “Guerra Santa” coloca indiretamente a questão se
o Islão poderá conciliar fé e razão.
O Papa pretende que a discussão sobre o diálogo das religiões se
inicie a sério a nível intelectual e acadêmico dado que a que a
política por questões óbvias só tem estado interessada em fazer
das religiões uma papa-açorda e em instrumentalizá-las para os
seus fins.
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
|