|
27/JUN/2006
As associações filantrópicas criadas pelos portugueses no Rio de
Janeiro e o futuro das Comunidades Portuguesas
Após a independência, em 1822, os portugueses radicados na cidade
do Rio de Janeiro constatando as dificuldades existentes nos
campos assistencial e filantrópico dispensados à população e,
principalmente considerando a sua nova situação de estrangeiros em
terras brasileiras, iniciaram um processo de criação de
instituições de caráter particular que visavam atendê-los quando,
vitimados por doenças ou por outras dificuldades que os podiam
levar ao estado de carência, procuravam suprir tais deficiências
contando para isso com o apoio de inúmeros empresários.
E foi assim que surgiu, em 10 de junho de 1880, a Sociedade de
Socorros Mútuos Luiz de Camões, formada por ocasião das
comemorações do tricentenário da morte do grande poeta da raça e
que, no decorrer dos anos, acabou por incorporar uma série de
associações voltadas para a filantropia e a mutualidade, como a
Real Associação Beneficente dos Artistas Portugueses, o Centro
Luso-Brasileiro Paulo Barreto, a Congregação dos Filhos do
Trabalho D. Carlos 1º, Rei de Portugal, a Sociedade Beneficente
das Famílias Honestas e a Caixa Humanitária dos Pedreiros, mudando
posteriormente de nome, quando passou a se denominar Sociedade
Beneficente Luso-Brasileira, num exemplo de fusão associativa que
soube ultrapassar as dificuldades impostas pelos novos tempos,
constituindo-se num exemplo que merece ser alvo de reflexão, de
interesse e de seguimento por parte de muitas outras, recebendo,
mais recentemente, a atual denominação de Associação Beneficente
Luso-Brasileira.
Se ainda hoje, ressaltamos a importância de entidades de caráter
filantrópico como coadjuvantes do poder público na prestação do
auxílio aos carentes, naquele tempo, quando não havia previdência
social oficial, quando grassavam epidemias das mais sérias e
quando os recursos da medicina eram muito mais limitados, o valor
de tais instituições era fundamental e muitos foram os que se
salvaram pelo apoio fundamental prestado por elas.
A necessidade da
existência de tais iniciativas de caráter particular era tão
importante que quase se podia dizer que era a certeza do apoio
para quem podia contar com elas ou o desamparo e até a morte a
quem não as tinha, pois o Estado pouco podia fazer.
No final do
século XIX e início do século XX, surgiram nesta cidade diversas
outras associações que buscavam dar esse apoio e promover a união
entre os portugueses e seus descendentes, como por exemplo a
Fraternidade dos Filhos da Luzitânia, a Associação Beneficente
Memória a D. Afonso Henriques, o Centro Humanitário Mouzinho de
Albuquerque, a Real Associação Beneficente Conde de Matosinhos e
São Cosme do Vale, a Associação Beneficente Memória ao Almirante
Saldanha da Gama, a Sociedade Protetora dos Barbeiros e
Cabeleireiros, a Sociedade União Beneficente dos Cocheiros e a
Sociedade Auxiliadora dos Artistas Alfaiates, entre outras.
Nessa época também foram fundadas a
Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência e a Real e
Benemérita Sociedade Portuguesa Caixa de Socorros D. Pedro V, a
primeira atravessando atualmente grave crise financeira e
administrativa e a segunda, ainda em plena atividade,
constituindo-se num dos belos exemplos de filantropia portuguesa
desta cidade e que, apesar das dificuldades do presente, continua
a prestar inúmeros benefícios aos necessitados.
Esse processo, do qual a emigração
portuguesa só tem que se orgulhar, caracterizou o povo português
em todos os pontos onde os portugueses chegaram, constituindo-se
num magnífico exemplo de solidariedade humana.
Onde quer que os portugueses
chegassem, logo se apressavam em fundar um hospital, um
ambulatório ou uma casa assistencial em que pudessem oferecer o
tratamento e o amparo necessários à manutenção de sua saúde,
fazendo sempre questão de estender tal apoio aos naturais das
terras que os acolhiam.
Da mesma forma, era obrigatório o
surgimento de um templo religioso, onde agradeciam a Deus pelo
resultado das suas conquistas e onde promoviam a nobre função de
expandir a sua religiosidade fazendo chegar a doutrina legada
pelos seus antepassados a todos os povos que os recebiam,
contribuindo decididamente para a expansão do cristianismo no
mundo. Também nunca deixavam de fundar uma associação recreativa,
sempre voltada para o culto das suas origens e tradições
folclóricas, onde amainavam o seu cansaço após uma semana de
trabalho, matavam as saudades da sua terra longínqua e conviviam
com os amigos e os seus conterrâneos.
E foi assim, que foram surgindo, por
este mundo afora, mais de 3.000 associações de origem portuguesa
que são, sem sombra de dúvida, a razão mais forte da nossa
presença em todos os continentes e uma das ações mais importantes
na apreciação do processo de difusão da língua portuguesa no
mundo.
Nos dias em que vivemos, deparamo-nos com novo e empolgante
desafio: é que em grande parte dos países que acolheram as nossas
comunidades emigrantes, essa emigração cessou, fazendo-nos
examinar com grande preocupação, como manter essas associações,
como preservar o patrimônio que possuem, como conseguir quadros
dirigentes para as conduzirem e fazerem preservar os seus nobres
objetivos, tudo para manter a nossa presença e a nossa cultura
vivas no estrangeiro, pois em muitos países a ação das entidades
de raiz portuguesa acabam por desenvolver relacionamentos e
estimular contatos informais, a nível internacional, com maior
desenvoltura que os próprios instrumentos governamentais
existentes entre esses países, proporcionando um auxílio
fundamental e indispensável à ação das chancelarias.
A nossa maior
esperança deposita-se exatamente na figura dos luso-descendentes
que em número cada vez maior vêm participando dos quadros
dirigentes dessas associações, constituindo-se numa força
crescente e a garantia da nossa presença nos países de
acolhimento. Quero aproveitar esta oportunidade para lançar um
apelo aos nossos descendentes para que, dentro das suas
possibilidades, dediquem algum tempo à preservação dessas
entidades que foram construídas com muito amor, muito empenho e
muita dedicação pelos seus antepassados e que merecem, desses
jovens, o respeito e a dedicação às suas origens.
A minha experiência junto às
comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, obtida durante o
mandato parlamentar que tive a honra de ocupar na Assembléia da
República Portuguesa nesta última legislatura, quando tive a
oportunidade de visitar núcleos portugueses nos locais mais
longínquos, veio me proporcionar um conhecimento adicional que fez
aumentar o meu orgulho como cidadão e como português, por tudo o
que nós, portugueses, temos sido capazes de criar, ao
constituirmos uma admirável malha associativa, além de formarmos
um patrimônio cultural, arquitetônico, social e filantrópico, sem
comparações, realização que só se tornou possível graças à
coragem, à determinação e ao universalismo do nosso povo, que, em
todos os quadrantes, soube se integrar, independentemente da raça,
do credo ou da cultura dos povos que o acolheu.
Nenhum povo conseguiu se integrar com
tanta facilidade e adaptar-se à cultura de outros povos como o
português, constituindo-se num exemplo de humanismo e globalização
que só agora, séculos mais tarde, está a ser reconhecido
cientificamente pela comunidade internacional.
Eduardo Neves Moreira
Presidente do Elos Clube do Rio de Janeiro
Vice-Presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras |