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02/JUN/2006
Futebol um Símbolo, uma Força, uma
oprtunidade
Refugiados da vida entram no
relvado
O campeonato do Mundo na Alemanha atrairá 3 milhões de
visitantes a 64 jogos entre as 32 nações participantes. O resto
fica atado aos ecrãs da TV, à Rádio e aos jornais.
Como na religião também no futebol há
fiéis, devotos, fanáticos, indiferentes e também os heréticos, os
agnósticos, e mesmo os ateus da bola. Não faltam também os
comerciantes de artigos devocionais e os padres que se preocupam
com a consciência da nação.
Como na igreja, a alma do futebol une as gerações e as camadas
sociais; pequenos e grandes sentem-se unidos por uma força
misteriosa; aí a alma liberta-se e quando há golos acontece mesmo
salvação.
De facto, o futebol como protótipo e simulação da vida mostra-nos
como se vive, como se domina e como se vence. As regras são claras
e os limites também. Nesta liturgia social dá-se a
presencialização autêntica da realidade da arena.
No jogo o homem realiza-se, chegando a
vivência do acontecimento a transcender a própria realidade: sem
consequências práticas satisfaz os mais profundos instintos.
A
pura esperança de que algo aconteça, de que aconteça o melhor,
transporta a comunidade futebolística para uma dimensão dum real
sem verdades complicadas. Futebol torna-se simplesmente o ponto de
encontro de todas as esperanças, a potência em si. Neste potencial
circula também a seiva social do não estar só, a comunhão!
No Estádio, ou no ecrã, longe das peias e dos muros da sociedade,
num campo neutro e verde à volta duma bola prenhe, vazia de
sentido e de significações complicadoras, reúne-se a comunidade
universal que irmanada reza, chora, rejubila e grita, projectando
de coração inocente e puro, a acção e o sentido que os jogadores
realizam.
Neste estádio não há moralismos
nem verdades partidárias; reina o sentimento, a afectividade
global. Nesta festa da vida só parece haver uma sombra: o árbitro
(que os preços dos bilhetes e os ordenados escandalosos são para
se considerarem com humor!
Os preços altos dos bilhetes até
servem para os políticos justificarem o aumento dos impostos:
quem, não sendo rico, tem tanto dinheiro para ir à festa também
pode dispensar algum para o desgoverno estatal!).
Para o adepto, ao declinar do
próprio sentido, já não conta a identidade, chega apenas a
identificação: mais que uma sublimação, uma espécie de sacerdócio.
Este, espantado da vida, refugia-se no
relvado verde por 90 minutos e, depois da cerimónia real do
estádio, passa ao jogo do dia a dia em que as ruínas duma
sociedade cada vez se tornam mais presentes e a ânsia por um novo
dia mais óbvia. As nuvens da semana são dissipadas pelo sol do
fim-de-semana. Sonho e realidade, dois pólos da mesma ilusão! A
desobriga de fim-de-semana nos estádios e televisões pode muito…
Ela alivia e liberta a nação do povo e o povo da nação!
O jogo de futebol é um reflexo da nossa vida resumida em 90
minutos. É um jogo verdadeiro em que se joga em nome de regras mas
em que estas são continuamente infringidas. Como na vida há bons e
maus e o jogo é aberto: não se sabe quem ganha; certamente o
melhor! A fé na vitória cimenta e dá consistência. Não faltam a
dramaturgia, o sucesso, a derrota, o sofrimento, o gozo, as
lágrimas nem tão-pouco as preces e urras além dum Happy End.
Na vitória abraçam-se estranhos, na
derrota consolam-se também. Lágrimas de sofrimento e de alegria, o
subterrâneo da vida aflora. A solidariedade levanta as mãos. É uma
celebração que aproxima, que liberta de complexos, de etiquetas e
de todos os cabrestos sociais.
Nesta liga em vez de santos há heróis. Como numa comunidade
religiosa também já se nasce portista ou benfiquista. O clube é a
paróquia onde se é iniciado. Procissões e romarias estão na ordem
do dia. Quando o ambiente o pede também se dão conversões.
Expressões de simpatia por um outro clube podem levar à
excomunhão. O futebol além dalgumas mazelas também tem as suas
virtudes, tais como: persistência, autodisciplina, força de
vontade, espírito de grupo, inteligência, solidariedade, etc.
No altar da televisão, o lembrar e reviver com devoção os actos
litúrgicos dos jogos e estrelas do passado fazem parte da magia da
celebração. No recordar comum de actos heróicos contra os
excluídos, os leprosos da hora, irmanam-se povos. Supera-se a
dicotomia de gerações e até já de sexos! Diria mesmo, se não fosse
a carência do espírito seria a melhor religião porque sintetizaria
o sagrado e o profano!
No estádio, acólitos, vestidos à maneira, com bandeiras e
amplificadores, não faltando o coro, criam a atmosfera necessária
para o acto. Ali, em campo, haverá o julgamento final em que a
comunidade dos justos vencerá sobre a dos injustos.
À entrada dos oficiantes entoa-se o
hino, os hinos que dão transcendência ao acto litúrgico, à
celebração do nós, da nação, do clube. Depois da liturgia do
ofertório seguem-se as expressões da comunidade, e também os
pedidos dos fiéis nos momentos de dor e penitência. Por fim é a
hora dos comentadores e dos contabilistas.
Na Alemanha a política e a economia predispuseram 20 milhões de
euros para que a imagem alemã brilhe. Se Portugal no “Europeu”
queria fazer passar a imagem dum Portugal como jardim à beira mar
plantado, a Alemanha pretende estar na ribalta do “Mundial” como o
jardim das ideias. Com o futebol o mundo lá fora deve admirar a
nação com a sua fatiota domingueira e o povo dentro das muralhas
da nação deve esquecer tristezas e despertar para as riquezas nele
adormecidas.
Se há muita coisa boa no futebol também há muita coisa a
questionar. O significado do futebol, o seu financiamento ou apoio
pelo Estado. Se por um lado se investem milhões em estádios com
relvados magníficos, por outro alargam-se as relvas onde se lê:
proibido pisara relva! Onde estão os lugares para as crianças
brincarem ao lado das casas? As crianças são relegadas para o
rectângulo do computador.
Em futebol tudo parece ser equacionado sob o molde dum
divertimento anestesiador do presente. O que importa é conversa e
fazer conversar, não importa o quê. À volta disto vive a política,
a economia, os Media, a alma do povo.
Enfim, um conversar sobre terceiros em
que o eu e o nós são envolvidos e atados num nó cada vez mais cego
à volta do Futebol. Este torna-se num Show encenado onde o sócio
funciona como cenário, como alimento das câmaras de TV, para criar
autenticidade nos estúdios. O jogo de Futebol como tal deixou de
ser o centro das atenções para passar a ser compreendido como
fenómeno político-social.
(Alguns leitores quererão saber qual a minha filiação
futebolística. Sim, também eu sou mortal e portanto adepto dum
clube: sou adepto do clube que perde. Melhor, para ser redondo
como a bola e universal como o mundo, sou adepto de todos, dos que
perdem e dos que ganham, dos masculinos e dos femininos, dos bons
e dos maus!)
Como fenómeno universal, o futebol tem uma relevância mundial. Nos
clubes há vedetas de todo o mundo. Tem grande potencial
inter-cultural a caminho dum universalismo sadio. Só falta encher
a bola de conteúdos mais integrais na construção dum mundo menos
dialéctico e dualista do “ou… ou” para passarmos para uma
consciência integral do “não só… mas também”….
António da Cunha Duarte Justo
Da Alemanha
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