|
27/ABR/2006
Carta aberta a Sua Excelência o
Presidente da República:
Senhor Presidente da República Prof.
Dr. Cavaco Silva
Excelência!
Solicitação: A Cultura Portuguesa – Um Bem a
Inserir na Constituição Portuguesa
Hoje como no século XVIII e XIX as
elites parecem usar o discurso como subterfúgio do pensamento em
que a idéia continua ao serviço da forma. Longe do “saber de
experiência feito” e da reflexão, a nação continua no seu miasma
geral do privilegiado saber teórico dogmático sempre submerso a
tudo o que vem de fora.
O 25 de Abril falhou em muitos
aspectos porque se limitou só a uma revolução política
conquistando apenas a rua. A revolução de Abril, justa nos
objetivos, foi conduzida por ideologias mal mastigadas nas mãos de
mercenários. Portugal encontra-se agora emperrado numa máquina de
estado monstruosa e encalhado no turbo-capitalismo. A nação
sente-se insegura.
O povo tem sido, desde há séculos,
reduzido a palco para os mesmos protagonistas, os traficantes de
idéias e de “drogas”, os beneficiados das revoluções.
O que mais urge é uma revolução
intelectual e moral, uma mudança de mentalidades. É óbvio que um
tratamento adequado terá que começar por se ocupar com a
identidade e a cultura portuguesas. Nesse sentido urge incrementar
o respeito pela cultura nacional, como liturgia do dia a dia numa
língua com valores, hábitos e mentalidade próprios.
Conseqüentemente seria de inserir na
Constituição Portuguesa um artigo em que se declare a cultura
nacional como um valor a defender... A nossa época já não se pode
contentar com os profetas marxistas nem com os ardinas do dia a
dia. Pelo contrário terá de redescobrir a grande herança
judaico-crista sempre a ser renovada e os valores que tornaram a
nação grande. A vontade e a fé, a fé nas teses e em teorias
aferidas conduzirão ao progresso.
Os Portugueses foram no século XV os
pioneiros na aplicação da grande descoberta – a terceira dimensão
da realidade - a lei da perspectiva (Leonardo da Vinci) que levou
o Homem à descoberta do espaço (aos descobrimentos). Portugal
conseguiu então ser a expressão do espírito, a nova consciência.
Hoje teremos que estar atentos ao novo salto qualitativo no
desenvolvimento da consciência humana, à nova consciência do
tempo como quarta dimensão da realidade (união tempo-espaço) –
teorias da relatividade e dos quantas – que nos obrigará a uma
nova maneira de estar no mundo e a arredar definitivamente do
materialismo do século XIX e daqueles que teimam em conduzir
Portugal com essas muletas. Tal como o Infante D. Henrique temos
que nos dedicar ao estudo da física, da biologia e da mística.
Tal como é comum nos artistas em
relação à arte, Portugal tem de reencontrar o seu específico, o
inconfundível do nosso povo e da sua história.
Numa estratégia de futuro, para o
fomento da identidade nacional, faz falta a elaboração duma
fenomenologia, duma exegese e duma sinopse do ideário e da práxis
nacional portuguesa, ao longo dos tempos, em comparação com as
outras nações, especialmente com os Estados Unidos da América, a
França, a Inglaterra e a Alemanha. Assim se tornariam mais
evidentes virtudes e vícios do nosso ser, num esforço de
diagnosticar e de elaboração de estratégias.
Todos juntos, podemos reconstruir o
nosso barco renovado com as madeiras do pinhal de Leiria. Trata-se
de nos batizarmos no Douro e recomeçar uma vida nova para assim
chegarmos a Belém, à foz do Tejo na descoberta do mundo. Não
podemos continuar a adiar o futuro. Na história, na literatura e
no nosso povo temos um fundus, uma mina sem limites, um médium de
humanismo, portuguesismo e de universalismo.
Não queremos um país de Bela
Adormecida nem de ardinas. Queremos um país dinâmico e crítico
onde o espírito se expressa na voz do mar que é ao mesmo tempo eco
e ânsia dum povo por justiça, fraternidade, solidariedade,
bem-estar, eternidade e transcendência.
Senhor Presidente da República
solicito a V. intervenção no sentido do referido. Auguro-lhe muita
força e saúde no exercício de tão nobre cargo ao serviço do
cidadão, no serviço do Homem!
Atenciosamente
António da Cunha Duarte Justo
Alemanha |