A degradação das condições de trabalho
está tornando cada vez mais distante o sonho de "subir na vida"
dos brasileiros que vivem atualmente em Portugal, revela um estudo
de Lúcia Bógus, professora da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (PUC-SP). A pesquisadora detectou uma mudança profunda
do perfil do imigrante brasileiro em Portugal com base em
entrevistas e dados oficiais. "No primeiro momento, eram
brasileiros qualificados, mas, ao longo do tempo, o nível de
qualificação foi se empobrecendo e hoje há uma clara predominância
de trabalhadores menos escolarizados", disse Bógus à Lusa.
Os dados do estudo demonstram também uma
rápida degradação das condições e das oportunidades de inserção
desses imigrantes no mercado de trabalho português nos últimos
anos. A conseqüência direta da mudança do perfil do imigrante
brasileiro é uma grande diminuição das "oportunidades de realizar
o sonho da ascensão social trabalhando em um país europeu",
sustenta.
"Apesar dos portugueses serem muito
acolhedores, não é fácil morar no exterior porque as condições de
vida e de trabalho dos brasileiros são muito duras", destaca.
"Ainda não há manifestações claras de hostilidades em Portugal,
mas a questão é saber até quando e quanto a presença de
brasileiros começará a incomodar a sociedade portuguesa",
questiona.
Mudanças
Nos anos 80 e 90, os imigrantes brasileiros tinham melhores
qualificações, o que lhes garantia bons salários e condições de
trabalho, segundo o estudo "Esperança Além-Mar: Portugal no
Arquipélago Migratório Brasileiro". Em 1991, cerca de um terço dos
brasileiros que viviam legalmente em Portugal eram profissionais
liberais, como dentistas, decoradores e especialistas em marketing
e propaganda. Era grande também a presença de estudantes (27,3%),
profissionais com qualificação média (16%) e professores (10,3%),
com uma pequena participação de trabalhadores não-qualificados
(5,3%).
Nos anos seguintes, houve uma completa
mudança do perfil do brasileiro, que se tornou mais pobre, com
menor grau de instrução e menor qualificação profissional, tendo
os profissionais liberais dado lugar a trabalhadores manuais, como
pedreiros, marceneiros e empregados de restaurantes, hotéis e
lojas.
Em 1999, a comunidade brasileira em
Portugal era formada por trabalhadores da construção civil
(29,1%), empregados de restaurantes e hotéis (25%) e de serviços
não-qualificados (27,1%).
Perfil atual
Atualmente, os brasileiros em Portugal são na maioria jovens (têm
entre 24 e 34 anos), oriundos do interior de Paraná, São Paulo,
Minas Gerais e Espírito Santo, e emigram sozinhos. A maioria
emigrou por motivos econômicos, como os baixos salários recebidos
no Brasil (54,5%) ou por estarem desempregados (25%).
Nos fluxos mais recentes para Portugal,
aumentou o número de jovens de classe média e baixa qualificação
dispostos a se dedicarem a serviços mal-remunerados, quase sempre
sem relação com a formação profissional adquirida no Brasil.
Quanto às razões que levaram à escolha de
Portugal como país de destino, a maioria dos consultados apontou a
expectativa de fácil integração na sociedade e a vantagem de
conhecer o idioma.
Cerca de 45% dos entrevistados
reconheceram a vontade de regressar ao Brasil depois de
conseguirem juntar economias e com a possibilidade de encontrar um
emprego no país de origem. "O brasileiro, em geral, sempre planeja
voltar, diferentemente do português, que veio para ficar no Brasil
após a Segunda Guerra Mundial", compara a pesquisadora.
Nos últimos anos, "assiste-se a um
significativo boom migratório para Portugal", com um aumento
significativo de estrangeiros do Leste Europeu, destaca o estudo,
que conclui que a disputa por empregos manuais no mercado de
trabalho português favorece os brasileiros por causa do "domínio
do idioma e da proximidade dos costumes".
O estudo destaca também que o fluxo de
brasileiros que se dirigiu para Portugal foi o que "apresentou
maiores mudanças quanto às características dos migrantes [que saem
do Brasil] e à diversificação de suas áreas de origem no Brasil".
Localização
Os brasileiros legalizados em Portugal vivem, sobretudo, nas
regiões metropolitanas de Lisboa (41,2%) e do Porto (13,6%), onde
"se concentram as maiores oportunidades de trabalho".
Outras cidades portuguesas com grande
número de brasileiros legalizados são Aveiro, Braga, Coimbra e
Faro. Em Portugal, não há uma segregação de brasileiros em áreas
residenciais específicas, como acontece com outros estrangeiros.
Os brasileiros "se misturam facilmente aos
portugueses, graças, sobretudo, à semelhança cultural e à difusão
de hábitos, já há muito realizadas pelas telenovelas brasileiras",
diz o estudo.
"A segregação é mais forte, por outro
lado, para a população africana negra, das colônias portuguesas
libertas, constituindo um nítido indicador de um processo de
discriminação racial e social que atinge, em menor grau, os
brasileiros", refere o texto.
O estudo salienta que o primeiro local de
residência dos emigrantes brasileiros e suas famílias quando
chegam a Portugal é, geralmente, o de origem de seus avós ou pais.
"Observa-se também, entre esses
imigrantes, a existência de laços de amizade efêmeros, nascidos em
função de relações de trabalho ou pela proximidade de residência,
sem que se consolidem laços duradouros", sublinha o estudo.
O estudo ressalta ainda que o recente
acordo bilateral entre Brasil e Portugal, assinado em 2003, que
permitiu a regularização extraordinária de brasileiros ilegais,
contribuirá para o "incentivo de novas migrações".
Com Lusa Portugal