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Quinta-feira | 24 ABR 08

Mudanças
Brasileiros enfrentam queda do 'sonho' em Portugal

Pesquisadora questiona até quando a presença de brasileiros desqualificados começará a incomodar a sociedade portuguesa.

Vanessa Sene
Do Jornal Mundo Lusíada

André Kosters - 29.mar.07/LusaPortugal

POLÊMICA >> O Partido Nacional Renovador iniciou uma campanha contra os imigrantes em Portugal, colocando cartazes em Lisboa que estão a gerar polêmica, em Março de 2007.

A degradação das condições de trabalho está tornando cada vez mais distante o sonho de "subir na vida" dos brasileiros que vivem atualmente em Portugal, revela um estudo de Lúcia Bógus, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). A pesquisadora detectou uma mudança profunda do perfil do imigrante brasileiro em Portugal com base em entrevistas e dados oficiais. "No primeiro momento, eram brasileiros qualificados, mas, ao longo do tempo, o nível de qualificação foi se empobrecendo e hoje há uma clara predominância de trabalhadores menos escolarizados", disse Bógus à Lusa.

Os dados do estudo demonstram também uma rápida degradação das condições e das oportunidades de inserção desses imigrantes no mercado de trabalho português nos últimos anos. A conseqüência direta da mudança do perfil do imigrante brasileiro é uma grande diminuição das "oportunidades de realizar o sonho da ascensão social trabalhando em um país europeu", sustenta.

"Apesar dos portugueses serem muito acolhedores, não é fácil morar no exterior porque as condições de vida e de trabalho dos brasileiros são muito duras", destaca. "Ainda não há manifestações claras de hostilidades em Portugal, mas a questão é saber até quando e quanto a presença de brasileiros começará a incomodar a sociedade portuguesa", questiona.

Mudanças
Nos anos 80 e 90, os imigrantes brasileiros tinham melhores qualificações, o que lhes garantia bons salários e condições de trabalho, segundo o estudo "Esperança Além-Mar: Portugal no Arquipélago Migratório Brasileiro". Em 1991, cerca de um terço dos brasileiros que viviam legalmente em Portugal eram profissionais liberais, como dentistas, decoradores e especialistas em marketing e propaganda. Era grande também a presença de estudantes (27,3%), profissionais com qualificação média (16%) e professores (10,3%), com uma pequena participação de trabalhadores não-qualificados (5,3%).

Nos anos seguintes, houve uma completa mudança do perfil do brasileiro, que se tornou mais pobre, com menor grau de instrução e menor qualificação profissional, tendo os profissionais liberais dado lugar a trabalhadores manuais, como pedreiros, marceneiros e empregados de restaurantes, hotéis e lojas.

Em 1999, a comunidade brasileira em Portugal era formada por trabalhadores da construção civil (29,1%), empregados de restaurantes e hotéis (25%) e de serviços não-qualificados (27,1%).

Perfil atual
Atualmente, os brasileiros em Portugal são na maioria jovens (têm entre 24 e 34 anos), oriundos do interior de Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, e emigram sozinhos. A maioria emigrou por motivos econômicos, como os baixos salários recebidos no Brasil (54,5%) ou por estarem desempregados (25%).

Nos fluxos mais recentes para Portugal, aumentou o número de jovens de classe média e baixa qualificação dispostos a se dedicarem a serviços mal-remunerados, quase sempre sem relação com a formação profissional adquirida no Brasil.

Quanto às razões que levaram à escolha de Portugal como país de destino, a maioria dos consultados apontou a expectativa de fácil integração na sociedade e a vantagem de conhecer o idioma.

Cerca de 45% dos entrevistados reconheceram a vontade de regressar ao Brasil depois de conseguirem juntar economias e com a possibilidade de encontrar um emprego no país de origem. "O brasileiro, em geral, sempre planeja voltar, diferentemente do português, que veio para ficar no Brasil após a Segunda Guerra Mundial", compara a pesquisadora.

Nos últimos anos, "assiste-se a um significativo boom migratório para Portugal", com um aumento significativo de estrangeiros do Leste Europeu, destaca o estudo, que conclui que a disputa por empregos manuais no mercado de trabalho português favorece os brasileiros por causa do "domínio do idioma e da proximidade dos costumes".

O estudo destaca também que o fluxo de brasileiros que se dirigiu para Portugal foi o que "apresentou maiores mudanças quanto às características dos migrantes [que saem do Brasil] e à diversificação de suas áreas de origem no Brasil".

Localização
Os brasileiros legalizados em Portugal vivem, sobretudo, nas regiões metropolitanas de Lisboa (41,2%) e do Porto (13,6%), onde "se concentram as maiores oportunidades de trabalho".

Outras cidades portuguesas com grande número de brasileiros legalizados são Aveiro, Braga, Coimbra e Faro. Em Portugal, não há uma segregação de brasileiros em áreas residenciais específicas, como acontece com outros estrangeiros.

Os brasileiros "se misturam facilmente aos portugueses, graças, sobretudo, à semelhança cultural e à difusão de hábitos, já há muito realizadas pelas telenovelas brasileiras", diz o estudo.

"A segregação é mais forte, por outro lado, para a população africana negra, das colônias portuguesas libertas, constituindo um nítido indicador de um processo de discriminação racial e social que atinge, em menor grau, os brasileiros", refere o texto.

O estudo salienta que o primeiro local de residência dos emigrantes brasileiros e suas famílias quando chegam a Portugal é, geralmente, o de origem de seus avós ou pais.

"Observa-se também, entre esses imigrantes, a existência de laços de amizade efêmeros, nascidos em função de relações de trabalho ou pela proximidade de residência, sem que se consolidem laços duradouros", sublinha o estudo.

O estudo ressalta ainda que o recente acordo bilateral entre Brasil e Portugal, assinado em 2003, que permitiu a regularização extraordinária de brasileiros ilegais, contribuirá para o "incentivo de novas migrações". Com Lusa Portugal

 

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