Os 30 brasileiros impedidos de entrar na
Espanha na terça-feira, 4 de março, foram deportados por
preconceito, avalia Jucineide Rangel, mãe da estudante Patrícia
Rangel, que fazia parte do grupo. Ela diz que aguarda com
ansiedade o retorno da filha, previsto para dia 7.
“O grupo que ela estava era heterogêneo.
Tinha pessoas com criança no colo, gente que já morava na Espanha
e que veio ao Brasil visitar parente, gente que tinha dupla
nacionalidade. A única coisa que ela [a polícia espanhola]
focalizou é que eram brasileiros, latinos e marroquinos. Detectou
gente que eles consideram menores”, afirmou Jucineide em
entrevista à Rádio Nacional.
Segundo informações fornecidas por
Patrícia à mãe, por telefone, o governo espanhol tem grande
preocupação com o número de turistas sul-americanos que chega ao
país para trabalhar, especialmente com os casos de prostituição.
“Esse pessoal vem clandestino. Eles não
podiam falar nada disso dela. A Patrícia faz mestrado no Brasil,
trabalha em estágio remunerado. Não podiam dizer 'essa menina veio
se prostituir ou tirar o nosso emprego'. Talvez, se eles tivessem
analisado bem esses detalhes, nem tivessem barrado eles.”
Jucineide conta que a filha permaneceu
“amedrontada” durante todo o tempo em que foi mantida em uma
pequena sala do aeroporto de Madri, assim que desembarcou no país.
Segundo o relato da filha à mãe, Patrícia chorava muito e ficou
sem comer e beber durante grande parte do primeiro dia, além de
ter tido seus pertences levados pela polícia espanhola.
“Até o antibiótico foi retirado dela. Ela
interrompeu o tratamento. [A sala] não tem grade, mas tem
alojamento, já é preparada para quem vai ficar retido no
aeroporto. Ela estava sem banho, sem escovar os dentes, sem lavar
o rosto desde o dia que ela viajou.”
O grupo de brasileiros saiu do Rio de
Janeiro na terça mas, no caso de Patrícia e de um colega que a
acompanhava, o destino final era a cidade de Lisboa, em Portugal,
onde fariam uma apresentação em um congresso.
“Ela é graduada em relações internacionais
e agora faz mestrado em ciências políticas. Portugal, todo ano,
faz um congresso sobre ciências políticas. Ela foi convidada pelo
governo de Lisboa a apresentar a tese de mestrado. Iria apresentar
ontem pela manhã no congresso.”
Jucineide considerou positiva a atitude do
governo brasileiro em relação ao governo espanhol, mas acredita
que é preciso fazer mais.
“Por enquanto, estou até gostando um pouco
da atitude [do governo brasileiro] porque parece que ele está se
revoltando, pedindo satisfação ao governo espanhol. Um cônsul até
ligou dizendo para a gente não se preocupar que eles já estariam
tomando providências. Acho que eles agiram, mas não adiantou nada,
porque o preconceito, pelo que minha filha falou, é contra
brasileiro.”
A mãe destacou ainda que pretende aguardar
a chegada de Patrícia para compreender melhor os detalhes em
relação ao tratamento recebido enquanto foi mantida na Espanha,
mas não descarta a possibilidade de mover uma ação na justiça
contra o governo espanhol. Segundo ela, os pré-requisitos exigidos
pelo país estavam em dia e não havia razão para a sua filha ser
barrada.
“Eles têm o comprovante de confirmação do
congresso que iriam participar, têm toda a documentação. Ela tem o
seguro saúde, que é obrigatório, está levando a quantidade de euro
diária que precisa, tem cartão de crédito internacional. Tudo que
eles estão alegando é mentira. Até a passagem de ida e volta eu
comprei junto com ela e [fizemos] a reserva do albergue.”
A filha Patrícia confirmou que seria
deportada para o Brasil no dia 06. O vôo saiu no dia seguinte, às
8h de Madri (meio-dia na Espanha).